O que começou como uma iniciativa de segurança alimentar no século 19 transformou-se em um dos maiores desafios ambientais do arquipélago do Havaí. Em 1825, a introdução da guayaba-morango (Psidium cattleyanum), uma espécie nativa da América do Sul, tinha como objetivo diversificar a dieta dos habitantes locais. Duas centenas de anos depois, a planta se tornou uma espécie invasora agressiva, forçando autoridades e pesquisadores a utilizarem tecnologias de ponta, como drones e controle biológico, para tentar conter sua expansão desenfreada.
A adaptação que saiu do controle
A árvore, que produz um fruto pequeno e avermelhado, encontrou no clima tropical havaiano o cenário ideal para prosperar. Sem os predadores naturais que, em seu habitat original na América do Sul, mantêm seu crescimento sob controle, a espécie passou a ocupar áreas de mata nativa com uma velocidade alarmante. A planta forma copas densas que bloqueiam a luz solar, impedindo a regeneração da flora local e alterando drasticamente a biodiversidade da região.
O problema é agravado pela dispersão facilitada por animais, que consomem os frutos e espalham as sementes por encostas e trilhas de difícil acesso. Essa característica torna o combate manual extremamente complexo e custoso, exigindo abordagens inovadoras para evitar que a vegetação nativa seja completamente sufocada pela espécie invasora.
Tecnologia aérea no combate à invasão
Diante da dificuldade de alcançar terrenos montanhosos e acidentados, o uso de drones tornou-se uma estratégia fundamental. Em testes realizados na Reserva Florestal de Olaʻa, o equipamento demonstrou ser muito mais eficiente que as equipes terrestres. Enquanto o manejo manual levava cerca de 12 minutos por árvore, com uma taxa de acerto de 97,6%, os drones conseguiram reduzir o tempo de operação para 2,8 minutos, mantendo uma precisão de 86,6% no lançamento de unidades de controle.
A agilidade proporcionada pela tecnologia aérea permite cobrir áreas que antes eram consideradas inalcançáveis, garantindo que o tratamento chegue a exemplares isolados em florestas densas. Após um ano de monitoramento, observou-se que 63% das árvores tratadas via drones já haviam sido colonizadas pelo agente de controle biológico, validando a eficácia da estratégia tecnológica.
Controle biológico com insetos brasileiros
A solução encontrada pelos cientistas envolve o uso do inseto Tectococcus ovatus, também originário do Brasil. Este organismo ataca a árvore de forma específica, provocando o surgimento de agallas nas folhas, o que enfraquece a planta e reduz sua capacidade de expansão sem a necessidade de erradicação mecânica imediata. O método foi aprovado no Havaí em 2012 e tem apresentado resultados expressivos.
Dados coletados entre 2021 e 2024 mostram um avanço significativo na eficácia do controle: a presença das agallas saltou de 23,1% para 100% dos exemplares avaliados em determinadas zonas de estudo. Esse equilíbrio biológico é visto como a forma mais sustentável de mitigar os danos causados por uma espécie que, embora tenha sido introduzida com boas intenções, acabou por desequilibrar um ecossistema inteiro.
O caso do Havaí serve como um alerta global sobre os riscos da introdução de espécies exóticas em novos ambientes. O manejo contínuo, que une o monitoramento por imagem à entomologia aplicada, segue como a principal linha de defesa para a preservação da biodiversidade local. Para acompanhar mais desdobramentos sobre ciência, meio ambiente e tecnologia, continue lendo o Fato Paulista, seu portal de referência para informações relevantes e contextualizadas.




