A história da região começa nas trilhas abertas pelos povos indígenas, que cruzavam o antigo caminho onde hoje corre a Jacu-Pêssego. Essas rotas ligavam aldeamentos, áreas de mata e pontos de troca, e foram usadas por jesuítas, bandeirantes e tropeiros que avançavam rumo ao interior. Itaquera nasceu como corredor de movimento, e essa vocação atravessa séculos.

No século XIX, quando São Paulo ainda era uma cidade pequena, a região ganhou importância com o Rancho Casa Pintada, ponto de descanso para viajantes que seguiam para Minas e Rio. Era ali que tropeiros paravam para comer, trocar animais e seguir viagem. A paisagem era rural, marcada por chácaras, mata fechada e, principalmente, pelas grandes formações rochosas que deram nome ao bairro: Itaquera, “pedra dura”, na língua tupi.
Essas pedras não ficaram apenas na paisagem. No final do século XIX e início do XX, Itaquera se tornou um dos polos de extração de rocha ornamental da capital. O famoso Granito Itaquera saiu das pedreiras locais para compor alguns dos principais símbolos arquitetônicos de São Paulo: a Catedral da Sé, o Theatro Municipal, o Mosteiro de São Bento, a Faculdade de Direito e até trechos da Ladeira da Memória. A mineração moldou o relevo, abriu clareiras e atraiu trabalhadores, criando uma economia que antecede a urbanização moderna.

Enquanto as pedreiras movimentavam o bairro, outro capítulo importante começava a ser escrito: a chegada dos imigrantes japoneses. A partir de 1911, famílias que haviam trabalhado nas lavouras de café começaram a adquirir pequenas glebas de terra em regiões próximas à ferrovia. Itaquera, com solo fértil e preços acessíveis, tornou-se um desses destinos. Nascia ali a Colônia Japonesa, um núcleo rural formado por pequenos produtores que cultivavam hortaliças, frutas e flores. Em 1922, a presença japonesa já era marcante, e a área conhecida como “Colônia” se consolidava como um espaço de trabalho familiar, disciplina agrícola e forte senso comunitário.
Mas a história da Colônia não é feita apenas de prosperidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, os imigrantes japoneses passaram a ser alvo de desconfiança e perseguição. Falar japonês em público foi proibido, escolas foram fechadas, reuniões comunitárias foram censuradas e a polícia fazia rondas constantes nas áreas rurais. Em Itaquera, ainda marcada por grandes trechos de mata, muitas famílias contam que, ao menor sinal de batida policial, homens e jovens se escondiam entre as árvores para evitar prisões arbitrárias.

É nesse período que surge uma figura querida da memória local: o Sr. Gabriel Mautone, lembrado como o primeiro motorista de táxi de Itaquera. Segundo relatos de sua família, sempre que via policiais se aproximando da região, ele corria para a Colônia Japonesa para avisar os líderes comunitários. Era o alerta que permitia que todos se escondessem na mata antes da chegada das autoridades. Durante esses períodos de tensão, o Sr. Gabriel levava mantimentos para os japoneses escondidos, garantindo que pudessem permanecer seguros até que o perigo passasse. Quando os soldados finalmente deixavam o bairro, era ele quem retornava à Colônia para avisar que “estava tudo bem”.

Com o fim da guerra e a vida voltando ao normal, o Sr. Gabriel continuou sendo ponte entre a Colônia e o restante do bairro. Foi ele quem criou a primeira linha de ônibus ligando a Colônia Japonesa ao centro de Itaquera — veículos simples, que levantavam poeira pelas estradas de terra e que, por isso mesmo, ganharam o apelido carinhoso de “poeirinhas”. Esses ônibus ajudaram a integrar a comunidade japonesa ao cotidiano do bairro e se tornaram parte da memória afetiva de gerações.
A ferrovia, inaugurada em 1875, foi o fio que costurou todos esses elementos. Ela trouxe imigrantes, facilitou o transporte da produção agrícola e das pedras das pedreiras, e aproximou Itaquera do centro da cidade. Ao longo das décadas, as antigas trilhas indígenas se transformaram em estradas, as estradas em avenidas, e o bairro ganhou escolas, comércio, loteamentos e, mais tarde, grandes conjuntos habitacionais.

Hoje, quando caminhamos por Itaquera, é difícil imaginar que sob o asfalto da Jacu-Pêssego corria uma trilha indígena, que sob algumas ruas ainda repousam cortes de pedreiras antigas, e que muitas das famílias da região descendem daqueles primeiros agricultores japoneses que ajudaram a dar forma ao bairro — inclusive enfrentando perseguições e medos durante a guerra. E é igualmente difícil imaginar que, em meio a tudo isso, um motorista de táxi, com coragem e senso de comunidade, ajudou a proteger vidas e, depois, a conectar a Colônia ao coração de Itaquera com seus “poeirinhas”.
Essa é a riqueza de Itaquera: um território que cresceu sem apagar suas camadas, onde cada rua carrega um pedaço da história — das pedras duras dos tupis às mãos calejadas dos imigrantes, passando pela solidariedade de figuras como o Sr. Gabriel, que fizeram do bairro um verdadeiro lar.
Bibliografia
Prefeitura de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura. História dos Bairros de São Paulo: Itaquera.
Arquivo Histórico Municipal de São Paulo – Documentação da Estação de Itaquera (1875).
Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil (Bunkyo) – Acervo sobre colônias agrícolas.
Lesser, Jeffrey. A Negociação da Identidade Nacional: Imigrantes, Minorias e a Construção do Brasil.
Arquivo Público do Estado de São Paulo – Fundo DOPS (1942–1945).
Carneiro, Maria Luiza Tucci. O Anti-Semitismo na Era Vargas.
Instituto Geológico do Estado de São Paulo. Rochas Ornamentais da Região Metropolitana de São Paulo.
Relatos da família do Sr. Gabriel Mautone (fonte oral).




