Crise institucional e prisões em série na Bolívia
A Bolívia vive um momento de intensa instabilidade política após a prisão do procurador-geral da República, Roger Mariaca, ocorrida na noite desta quarta-feira (30). A detenção, realizada em meio a um cenário de forte tensão, estende-se a outras 13 autoridades do país, incluindo o ex-ministro Eduardo Del Castillo e o procurador de Santa Cruz, Alberto Zeballos. As acusações que pesam sobre o grupo envolvem suposto tráfico de drogas e organização criminosa, desencadeando um debate sobre a independência das instituições judiciárias bolivianas.
A operação ganhou contornos internacionais devido ao papel central que Mariaca desempenhava em investigações sensíveis. O procurador era o responsável por apurar as atividades de Fernando Cerimedo, operador digital argentino conhecido por sua proximidade com figuras da direita latino-americana, incluindo o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o atual mandatário argentino, Javier Milei. Cerimedo, que foi preso na Bolívia em agosto sob acusações de tentativa de feminicídio e enriquecimento ilícito, é uma peça-chave em um tabuleiro que envolve interesses geopolíticos de Washington.
O papel de Cerimedo e a influência dos EUA
A figura de Fernando Cerimedo transcende o caso criminal comum. Apontado pela revista The Economist como o “homem do Maga na América Latina”, o consultor digital tornou-se uma referência para grupos alinhados ao ex-presidente Donald Trump. Sua trajetória inclui a participação ativa na campanha de desinformação contra o sistema eleitoral brasileiro em 2022, além de ter sido premiado recentemente em Mar-a-Lago, residência de Trump, pelas mãos do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
A relação entre a prisão de Mariaca e a influência estadunidense tornou-se evidente após o governo Trump revogar, na última segunda-feira (28), os vistos de entrada nos EUA de diversos procuradores bolivianos, incluindo Mariaca e Zeballos. O Departamento de Estado dos EUA justificou a medida sob o guarda-chuva da iniciativa Escudo das Américas, um bloco de 14 países que, sob o pretexto de combater cartéis, é visto por especialistas como uma estratégia para conter a influência chinesa na região.
Repercussões e acusações de perseguição
O Ministério Público da Bolívia denunciou a ação como um “sequestro”, alegando que as prisões ocorreram sem mandados judiciais formais. Em contrapartida, o ministro Marco Antonio Oviedo defendeu a operação, afirmando que o órgão estava infiltrado por uma rede criminosa voltada ao “narcoterrorismo”. O governo apresentou imagens de supostos fundos falsos em veículos ligados a Mariaca como prova da corrupção institucional.
A professora de relações internacionais Camila Vidal, da UFSC, avalia que o combate às drogas, quando instrumentalizado por potências estrangeiras, assume um caráter político. Segundo a especialista, a retirada de vistos e a pressão sobre investigadores que analisam redes de extrema-direita revelam um objetivo de desestabilização de forças contrárias aos interesses estratégicos dos EUA. O professor Salvador Schavelzon, da Unifesp, complementa que a infiltração do narcotráfico nas instituições bolivianas é um problema histórico, tornando o cenário atual um campo de disputa onde o poder tenta, simultaneamente, atuar contra o crime e utilizá-lo como narrativa de controle.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos desta crise que coloca o sistema de justiça boliviano no centro de uma disputa geopolítica global. Mantenha-se informado sobre os impactos dessas decisões na América Latina e os próximos passos das investigações envolvendo figuras centrais da política regional em nosso portal.



