Após o encerramento da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbatar, na Mongólia, o Brasil enfrenta um desafio central: converter o compromisso de restaurar 163 mil quilômetros quadrados de terras degradadas até 2030 em ações práticas e mensuráveis. Embora a meta tenha recebido elogios de organismos internacionais e da sociedade civil, o tom predominante entre especialistas é de cautela e vigilância.
O país assumiu o compromisso voluntário de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN), integrando um esforço global que envolve mais de 130 nações. O objetivo é frear o avanço da degradação e recuperar áreas produtivas, um movimento visto como essencial para a segurança hídrica e alimentar, especialmente em regiões vulneráveis ao clima.
Desafios para a implementação das metas
Apesar da recepção positiva, vozes influentes no setor ambiental apontam que o anúncio chega com um atraso de 11 anos, o que exige uma aceleração imediata das políticas públicas. Luiza Soares, especialista em sistemas alimentares da WWF Global, enfatiza que a ambição do plano precisa ser traduzida em resultados concretos. Segundo ela, a solução exige uma abordagem integrada que una conservação, manejo sustentável do solo e a transformação dos sistemas agrícolas.
A necessidade de inclusão social também é um ponto de atenção. Especialistas ressaltam que as populações que dependem diretamente da terra devem participar ativamente do processo, garantindo que a restauração não seja apenas uma métrica técnica, mas uma melhoria real nos meios de subsistência de comunidades afetadas pela degradação.
Estrutura administrativa e fiscalização
Para que o compromisso saia do papel, o Instituto Escolhas defende um fortalecimento institucional robusto. Rafael Giovanelli, especialista do instituto, sugere a criação de uma Secretaria Especial de Recuperação da Caatinga e Combate à Desertificação, vinculada à Presidência da República. A proposta inclui que o órgão tenha status de ministério, orçamento próprio e equipe técnica qualificada para gerir a complexidade da missão.
Paralelamente, a sociedade civil se organiza para monitorar o cumprimento das metas. Pedro Sena, conselheiro executivo da Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa), reforça que o acompanhamento anual será decisivo para avaliar se o Brasil está, de fato, evoluindo na conservação do solo ou se os números permanecerão apenas no campo das intenções.
Protagonismo regional e o papel do Nordeste
A região Nordeste assumiu um papel de destaque nas discussões da COP17. O Consórcio Nordeste firmou um memorando de entendimento com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), visando ampliar o acesso a metodologias globais e cooperação técnica. Para Carlos Gabas, secretário executivo do consórcio, o acordo é um passo fundamental para viabilizar projetos do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica.
A UNCCD, por meio de sua secretária adjunta, Andrea Meza, destacou que o Nordeste brasileiro é um território estratégico para a resiliência climática global. A cooperação busca não apenas combater a desertificação local, mas integrar a região a redes mundiais de regiões secas, fortalecendo a troca de experiências sobre o uso sustentável da terra.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos dessas metas e o impacto das políticas ambientais no desenvolvimento do país. Continue conosco para se manter informado sobre os temas que moldam o futuro do Brasil e do meio ambiente.




