A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, encerrou suas atividades nesta sexta-feira (28) sob um clima de forte descontentamento. Especialistas, representantes da sociedade civil e organizações ambientais classificaram o resultado do evento como frustrante, destacando a incapacidade dos países em firmar um compromisso global vinculante para o enfrentamento das secas, um problema que atinge proporções críticas em diversas regiões do planeta.
A principal crítica recai sobre o adiamento das negociações para a COP18, que será sediada no Egito. Para observadores internacionais, a postergação de decisões estruturais ignora a urgência de um cenário marcado por eventos climáticos extremos, como as secas históricas registradas na Europa e a redução drástica dos níveis de água no Rio Colorado, nos Estados Unidos. O impacto do fenômeno Super El Niño, que ameaça ecossistemas desde o Sul da África até a Amazônia, foi um dos pontos centrais que, segundo especialistas, deveria ter forçado uma resposta mais contundente dos líderes mundiais.
Impasse financeiro e divergências políticas
O debate sobre um mecanismo multilateral para combater a seca é uma demanda antiga, especialmente de nações africanas, que sofrem de forma desproporcional com a escassez hídrica. A proposta defendida por esses países envolve a criação de um suporte financeiro robusto que permita aos Estados vulneráveis antecipar e mitigar os efeitos de desastres climáticos. Atualmente, fundos internacionais como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) focam na degradação de terras de maneira ampla, o que, para muitos especialistas, não atende às especificidades da crise hídrica.
Contudo, o consenso foi bloqueado por divergências entre nações ricas e países em desenvolvimento. Governos de economias desenvolvidas, incluindo membros da União Europeia, têm resistido a acordos obrigatórios, preferindo modelos de adesão voluntária. A relutância em assumir compromissos financeiros externos é agravada pelo fato de que essas mesmas potências enfrentam hoje seus próprios desafios internos de escassez de água, o que tem limitado a disposição política para investimentos globais.
Alternativas e mecanismos de investimento
Diante da ausência de um tratado global, o foco das atenções se voltou para iniciativas paralelas lançadas durante a conferência. Um dos destaques foi a criação do Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), uma plataforma inédita de financiamento desenvolvida pela UNCCD em parceria com Luxemburgo e a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA). O projeto visa mobilizar até US$ 400 milhões para projetos de segurança hídrica, agricultura sustentável e recuperação de terras.
Além do DRIF, a COP17 marcou a apresentação da segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO), que introduziu o Índice de Resiliência à Seca (DRI). A ferramenta foi desenhada para auxiliar governos a mensurar sua capacidade de adaptação e preparação diante de períodos de seca. Embora essas iniciativas sejam vistas como passos importantes, especialistas como Christine Colvin, da WWF Global, alertam que ações isoladas, por mais bem intencionadas que sejam, não substituem a necessidade de uma política global coordenada e obrigatória para evitar que comunidades inteiras continuem pagando o preço da inércia diplomática.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos das políticas climáticas internacionais e os impactos das decisões globais na realidade brasileira. Continue conosco para se manter informado sobre os temas que moldam o futuro do meio ambiente e da economia global.




