Calila das Mercês celebra a força da literatura produzida fora dos grandes centros

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A escritora Calila das Mercês discute a importância do interior na literatura brasileira durante o Festival Literário de Paracatu.
Calila das Mercês celebra a força da literatura produzida fora dos grandes centros
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A escritora, pesquisadora e jornalista Calila das Mercês traz para o centro do debate literário a importância das geografias interioranas na formação do pensamento brasileiro. Curadora da quarta edição do Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu), em Minas Gerais, a autora defende que a produção cultural não deve ser vista como algo que chega apenas dos grandes eixos urbanos, mas sim como uma força viva e autêntica que brota do território.

Nesta edição, que ocorre entre os dias 26 e 30 de agosto de 2026, o festival adota o tema Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo. A proposta é estabelecer um diálogo entre dois gigantes da literatura e do pensamento social: o geógrafo Milton Santos, cujo centenário foi celebrado em maio, e o escritor João Guimarães Rosa, que vê sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas, completar 70 anos de impacto ininterrupto na cultura nacional.

Valorização do território e descentralização cultural

Para Calila, que divide a curadoria do evento com Sérgio Abranches e Afonso Borges, o festival em Paracatu cumpre um papel fundamental ao integrar vozes diversas. Ela alerta, contudo, para os desafios de manter a autonomia desses espaços. A escritora expressa preocupação com a possibilidade de festivais literários se tornarem palanques políticos ou eventos com “donos”, que tentariam ditar as regras de como a literatura deve ser consumida pelo público local.

“O grande desafio é produzir a ideia de que o pensamento não chega necessariamente de fora. Paracatu é um lugar que produz pensamento e tem trazido consigo uma identidade própria”, afirma a curadora. Ao promover encontros com nomes como Mia Couto, Alê Santos e Eliana Alves Cruz, o evento busca legitimar o repertório cultural que já existe nas cidades do interior, tratando-o com o respeito e a profundidade que a produção artística exige.

O processo criativo de Nódoa

Além de sua atuação na curadoria, Calila das Mercês vive um momento de celebração com o lançamento de seu primeiro romance, Nódoa, publicado em julho pela Companhia das Letras. A obra é fruto de um processo criativo marcado pela mobilidade e pela resiliência. A autora relata ter escrito o livro em trânsito, entre rodoviárias, ônibus e mudanças de casa, carregando consigo as vivências do sertão e do recôncavo baiano.

O romance é narrado pelas personagens Regina e Lurdes Maria, mulheres que, mesmo em constante movimento, mantêm laços indissolúveis. A estrutura do livro é um diferencial à parte: Calila utiliza a materialidade da escrita, alternando entre maiúsculas e minúsculas e explorando o uso de silêncios nas páginas para traduzir a oralidade, o gesto e a condição social de cada personagem. Para a autora, as “nódoas” que dão nome à obra representam marcas afetivas, como a mancha de um alimento preparado por alguém querido, que permanecem na memória e na identidade de quem lê.

O 4º Festival Literário Internacional de Paracatu segue com sua programação gratuita no Centro Histórico da cidade até o dia 30 de agosto, reafirmando o compromisso com a democratização do acesso à leitura e o fortalecimento da literatura brasileira. O Fato Paulista segue acompanhando os principais desdobramentos dos eventos culturais que movimentam o país, trazendo sempre um olhar atento sobre quem faz a nossa cultura acontecer. Continue acompanhando nossas reportagens para se manter informado sobre os temas que conectam o Brasil.

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