Invisíveis a olho nu e formando um complexo sistema subterrâneo, os fungos emergem como uma promissora aposta científica na luta contra a degradação de terras, a desertificação e os impactos da crise climática. Essa possibilidade revolucionária foi destacada por um grupo de pesquisadores, que apresentou os resultados de estudos recentes em um encontro na Embaixada da França em Ulaanbaatar, Mongólia, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17), ocorrida em agosto de 2026.
As pesquisadoras Toby Kiers e Burenjargal Otgonsuren, à frente desses estudos, revelaram o papel fundamental dos fungos micorrízicos. Esses organismos estabelecem uma simbiose vital com as raízes das plantas, formando extensas redes que atuam como uma verdadeira infraestrutura viva no solo. Enquanto as plantas fornecem carbono, resultado da fotossíntese, os fungos as auxiliam na absorção de água e nutrientes essenciais como fósforo e nitrogênio, um ciclo que sustenta a vida acima e abaixo da superfície.
O papel vital dos fungos micorrízicos na saúde do solo
A complexa rede de fungos micorrízicos vai além da troca de nutrientes. Ela desempenha um papel crucial na agregação das partículas do solo, o que reduz significativamente a erosão e aumenta a capacidade das plantas de resistir à seca e a outros estresses ambientais. Essa resiliência é fundamental em cenários de mudanças climáticas, onde eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos.
A bióloga evolucionista Toby Kiers, diretora-executiva da Society for the Protection of Underground Networks (SPUN), compara essa rede a um sistema circulatório. “É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantém o solo unido. São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo”, explica Kiers. Um solo estável e com uma comunidade microbiana saudável oferece as condições ideais para o florescimento da vegetação, que, por sua vez, realimenta os fungos com carbono, perpetuando o ciclo da vida.
A perda dessa diversidade fúngica, adverte Kiers, tem consequências graves: “Você perde a diversidade de fungos, perde o carbono que está entrando no solo e perde parte da capacidade de manter o solo unido. Isso dificulta o crescimento das plantas e pode alimentar ainda mais a degradação”.
Estratégias de recuperação em pastagens da Mongólia
A estratégia testada na Mongólia, sob a liderança da pesquisadora local Burenjargal Otgonsuren, é notavelmente simples, mas eficaz. Pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e a intervenção humana. Essas áreas protegidas funcionam como refúgios de biodiversidade subterrânea, capazes de se tornar fontes de fungos locais para futuros projetos de restauração de terras degradadas.
Burenjargal Otgonsuren, ecóloga especializada em micorrizas, cresceu em uma região rural da província de Uvurkhangai e vivenciou de perto a relação entre pastores e a terra. Essa experiência moldou sua escolha profissional, levando-a a “ajudar a tratar o planeta”. Ela instalou seis áreas cercadas em regiões de estepe e deserto para interromper a pressão do pastoreio. Os primeiros resultados, obtidos em 2025, já mostram um cenário promissor: a vegetação dentro das áreas protegidas apresentava maior altura em comparação com as plantas fora das cercas.
A pesquisadora planeja monitorar os experimentos por pelo menos três anos, com a visão de criar corredores ou áreas de refúgio mais amplas para a conservação dos fungos. Segundo Otgonsuren, pesquisas indicam que até 91% das pastagens degradadas da Mongólia poderiam ser recuperadas em algum grau. Contudo, para que isso aconteça, não basta apenas replantar a vegetação.
“Para recuperar a pastagem, a questão mais importante é ter um solo saudável. E, quando falamos de solo saudável, precisamos também proteger a biodiversidade que vive dentro dele”, enfatiza a ecóloga.
Biodiversidade subterrânea: um universo ainda desconhecido
A pesquisa revelou uma dimensão surpreendente da biodiversidade nas estepes mongóis. Cerca de 90% das sequências de DNA fúngico analisadas nas amostras coletadas pertenciam a espécies ainda não catalogadas pela ciência. Apenas na região do Gobi, foram identificadas 541 unidades taxonômicas associadas aos fungos micorrízicos. Muitos desses organismos parecem ser altamente adaptados às condições locais, o que os torna únicos e insubstituíveis.
Essa descoberta reforça a importância da conservação dos fungos locais. A solução não é simplesmente transplantar fungos de outras regiões para áreas degradadas. “Precisamos proteger essas espécies endêmicas e reproduzi-las nós mesmos para depois utilizá-las”, afirma Otgonsuren, destacando a necessidade de abordagens personalizadas e baseadas na biodiversidade local.
Uma nova agenda para a conservação global
Para Toby Kiers, esses achados impulsionam uma mudança na forma como as políticas ambientais encaram a biodiversidade. Tradicionalmente, os esforços de conservação focam em plantas e animais visíveis, deixando os organismos subterrâneos em segundo plano. “Precisamos superar esse viés em favor do que está acima do solo e começar a proteger aquilo que não conseguimos ver”, argumenta.
A pesquisadora aponta que cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela SPUN estão fora de áreas protegidas. Ela defende a integração dos fungos nas políticas de combate à desertificação e nos instrumentos de monitoramento da degradação da terra. A SPUN já colabora com pesquisadores e comunidades em diversas partes do mundo para mapear essas redes subterrâneas, visando incorporar o conhecimento local em um atlas global e nas políticas públicas. “Estamos convidando as pessoas a integrar os fungos às políticas”, ressalta Kiers. “Eles são componentes vitais de como monitoramos e combatemos a desertificação”, conclui. Para mais informações sobre o combate à desertificação, visite o site da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação.
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