O cenário das apostas online no Brasil revela uma face preocupante que vai além da economia: a busca por sobrevivência financeira. Segundo a pesquisa Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias, divulgada nesta segunda-feira (17), quatro em cada dez mulheres brasileiras (42%) já participaram de plataformas de apostas. Enquanto 20% mantêm o hábito atualmente, 22% já se aventuraram, mas abandonaram a prática.
O estudo, conduzido pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia, traz um recorte inédito ao incluir a perspectiva de quem convive com apostadores. Ao somar apostadoras e pessoas afetadas indiretamente, mais da metade da população feminina do país (54%) sente os impactos diretos desse mercado, que tem se infiltrado nos lares brasileiros sob a promessa de ganhos rápidos.
A busca por dignidade financeira nos jogos
Diferente do que se possa imaginar, a motivação feminina para o jogo raramente está ligada ao luxo ou ao entretenimento puro. Para a maioria das entrevistadas, a aposta surge como uma tentativa desesperada de administrar o orçamento doméstico. O objetivo é cobrir despesas essenciais, como a compra de alimentos, o pagamento de boletos atrasados ou a aquisição de material escolar para os filhos.
Beatriz Della Costa, fundadora do estúdio Clarice e cientista social, aponta que as plataformas de apostas exploram o papel social do cuidado, historicamente atribuído às mulheres. Ao prometer uma vida com mais dignidade, as empresas seduzem mães que desejam proporcionar pequenas alegrias aos filhos, como um pedido de delivery ou uma ida ao cinema, sem o peso constante da escassez financeira.
O peso do julgamento e o isolamento
A pesquisa destaca uma disparidade de gênero no julgamento social. Enquanto homens apostadores muitas vezes são vistos como provedores tentando sustentar a família, mulheres que apostam enfrentam um estigma muito mais severo. A cobrança sobre a mulher como gestora do lar faz com que, ao perder dinheiro, ela seja duplamente questionada e culpabilizada.
Esse cenário de vergonha empurra as apostadoras para o isolamento. O levantamento indica que elas preferem jogar sozinhas e escondidas dos familiares. Esse comportamento é mais acentuado no período noturno e de madrugada, quando 30% das mulheres costumam realizar suas apostas, um índice superior ao registrado entre os homens.
Impactos na estrutura familiar e violência
Para 67% das entrevistadas, as apostas estão degradando as famílias brasileiras. O prejuízo financeiro é apenas a ponta do iceberg, acompanhado por um rastro de mentiras, perda de confiança e adoecimento mental. Cerca de 23% dos brasileiros relatam ter presenciado ou conhecido situações em que o jogo foi o gatilho para episódios de violência doméstica.
A insegurança é agravada pelo endividamento, que em casos extremos chega a envolver agiotas. Entre as mulheres que apostam, 7% admitem ter recorrido a empréstimos informais para continuar jogando. O impacto emocional é profundo, com relatos frequentes de desgaste, brigas e a sensação de que a capacidade de trabalho do apostador é comprometida pelo vício.
A ilusão da expertise e o futuro
Um dos pontos mais críticos levantados pelo estudo é a crença na “habilidade”. Cerca de 25% das mulheres acreditam que é preciso conhecimento técnico para vencer, o que as leva a buscar cursos e dicas de coaches de apostas. Essa falsa percepção de controle é, segundo especialistas, uma armadilha que precisa ser combatida com maior rigor na regulação da publicidade e na proibição de conteúdos que prometem estratégias infalíveis.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos sobre o mercado de apostas no Brasil, trazendo análises fundamentadas e o impacto real dessas plataformas na sociedade. Mantenha-se informado sobre este e outros temas de relevância nacional através de nossa cobertura diária.
Para mais detalhes sobre o estudo, acesse a pesquisa completa.




