Um paradoxo se desenha no cenário familiar brasileiro, conforme revela um estudo recente do Instituto Nexus: enquanto a grande maioria da população atribui alta importância à figura paterna na vida dos filhos, metade dos brasileiros acredita que os pais da atualidade estão menos presentes na criação do que as gerações anteriores. Essa constatação, que emerge de uma pesquisa aprofundada com mais de duas mil pessoas em diversas regiões do país, lança luz sobre as complexas dinâmicas da paternidade contemporânea e os desafios de conciliar expectativas sociais com a realidade do dia a dia.
A pesquisa não apenas quantifica essa percepção, mas também explora as nuances por trás dela, evidenciando como homens e mulheres, bem como diferentes faixas etárias, interpretam o papel e a atuação dos pais. Os resultados sugerem uma transformação nas expectativas sobre o que significa ser um “bom pai”, deslocando o foco de provedor financeiro para a presença ativa e o envolvimento emocional, um movimento que, no entanto, ainda enfrenta barreiras para se concretizar plenamente na prática.
A percepção da presença paterna no cotidiano familiar
A análise do Instituto Nexus apontou uma divergência notável na percepção sobre a presença paterna. Entre as mulheres entrevistadas, 56% manifestaram a crença de que os pais de hoje participam menos da criação dos filhos em comparação com o passado, enquanto apenas 31% observam uma presença maior. Já entre os homens, a visão se mostrou mais equilibrada, com 44% acreditando em uma participação mais ativa na atualidade e outros 44% afirmando que essa presença diminuiu.
Essa diferença de perspectiva é crucial para entender as expectativas e as pressões sociais que recaem sobre pais e mães. A percepção feminina, majoritariamente apontando para uma menor presença, pode refletir uma demanda crescente por uma divisão mais equitativa das responsabilidades parentais e um reconhecimento da sobrecarga que muitas mulheres ainda enfrentam na criação dos filhos.
A importância da paternidade: um consenso com nuances
Apesar das percepções mistas sobre a presença, a importância da paternidade é amplamente reconhecida. O estudo revelou que oito em cada dez brasileiros consideram a relevância dos pais na vida dos filhos como alta ou muito alta. Especificamente, 81% dos homens classificam a paternidade como fundamental para o desenvolvimento dos filhos, um índice ligeiramente superior aos 73% das mulheres que compartilham da mesma visão.
As faixas etárias também apresentam variações interessantes nesse reconhecimento. A importância da figura paterna é mais acentuada entre os jovens de 16 a 24 anos, com 82% deles a considerando relevante. Esse índice, contudo, diminui progressivamente com a idade, chegando a 62% entre as pessoas com 60 anos ou mais. Essa tendência pode indicar uma mudança geracional na valorização do papel ativo do pai, talvez influenciada por novas configurações familiares e discursos sociais sobre o tema.
O que define um “bom pai” para os brasileiros
A pesquisa do Instituto Nexus foi além da percepção e da importância, buscando compreender o que, na prática, define um “bom pai” para a população brasileira. O atributo mais valorizado, com 49% das menções, é “ser presente no dia a dia”. Esse dado sublinha uma clara transição do modelo tradicional de pai provedor para um pai mais envolvido emocional e cotidianamente.
Outras características importantes incluem “educar/orientar com limites” (19%), “demonstrar carinho e afeto” (8%), “dar exemplo” (7%) e “oferecer segurança financeira” (3%). A presença diária é ainda mais enfatizada pelas mulheres (53%) em comparação com os homens (45%), enquanto a imposição de limites na educação é mais valorizada pelo público masculino (21% contra 17% do feminino). O convívio paterno no dia a dia é considerado mais importante pelas faixas etárias mais jovens (25 a 40 anos com 56%, e 16 a 24 anos com 55%), enquanto os mais velhos (41 a 49 anos com 24%, e 60 anos ou mais com 26%) tendem a priorizar a educação e a orientação.
O desafio da prática: entre o discurso e a realidade da paternidade
Marcelo Tokarski, CEO do Instituto Nexus, ressalta que “o brasileiro já consolidou a ideia de que o bom pai é aquele presente no dia a dia, deixando para trás a figura do mero provedor financeiro. O desafio agora está na prática”. Essa avaliação sintetiza o cerne da questão levantada pelo estudo: a sociedade brasileira evoluiu em sua compreensão e valorização de uma paternidade mais ativa e participativa, mas a implementação dessa visão no cotidiano familiar ainda enfrenta obstáculos.
A discrepância entre o discurso e a realidade, onde metade da população ainda percebe uma menor participação paterna, sugere que as mudanças culturais e comportamentais são processos complexos e demorados. A pressão por uma presença mais efetiva dos pais é um reflexo de transformações sociais mais amplas, que buscam redefinir os papéis de gênero e promover uma parentalidade mais compartilhada e equitativa. Para avançar, é fundamental que haja um suporte social e institucional que incentive e facilite essa maior participação paterna. Para mais informações sobre pesquisas sociais no Brasil, você pode consultar o portal da Agência Brasil.
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