Violência de gênero: sobrecarga doméstica agrava vulnerabilidade feminina, alertam especialistas

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Especialistas alertam que a sobrecarga doméstica imposta às mulheres é um fator crucial que as torna mais vulneráveis à violência de gênero no Brasil.
Violência de gênero: sobrecarga doméstica agrava vulnerabilidade feminina, alertam especialistas
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O Brasil celebra, em 7 de agosto de 2026, os 20 anos da Lei Maria da Penha, um marco legal fundamental na proteção das mulheres contra a violência doméstica e familiar. Contudo, mesmo com avanços legislativos, especialistas alertam que um fator persistente e muitas vezes invisível continua a expor mulheres a situações de abuso: a sobrecarga doméstica. A responsabilidade desproporcional pelo cuidado com filhos, familiares e a gestão do lar, historicamente atribuída às mulheres, é apontada como um elemento crucial que as torna mais vulneráveis à violência de gênero.

Essa avaliação, compartilhada por diversos profissionais da área, destaca como o acúmulo de tarefas e a falta de apoio criam um cenário propício para agressões e outras formas de violência, dificultando a saída de relacionamentos abusivos e perpetuando um ciclo de sofrimento.

O Peso do Cuidado e a Vulnerabilidade Feminina

A professora Thamires da Silva Ribeiro, especialista em políticas de cuidado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), estabelece uma conexão direta entre a política de cuidado e o enfrentamento à violência contra a mulher. Segundo a pesquisadora, mulheres sobrecarregadas com o trabalho de cuidado frequentemente se encontram reclusas no ambiente privado de suas casas, sem autonomia econômica. Essa condição as torna significativamente mais suscetíveis a permanecer em situações de violência.

A situação é ainda mais grave para as mulheres negras, que, no contexto brasileiro, muitas vezes representam a base do sistema de cuidados. Thamires Ribeiro enfatiza que, devido à nossa formação socio-histórica, mulheres negras estão em maior vulnerabilidade às expressões da questão social e às desigualdades estruturais.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua de 2022 corroboram essa percepção, revelando que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades, enquanto os homens despendem apenas 11,7 horas. Essa disparidade evidencia a distribuição desigual do trabalho de cuidado e suas consequências.

A Sobrecarga como Forma de Violência e Seus Impactos

Para Christine Silveira Abdalla, especialista em geriatria e gerontologia e fundadora da ONG Associação Cuidadosa, a própria sobrecarga com o trabalho de cuidado já pode ser considerada uma forma de violência. Ela observa que, sem uma rede de proteção adequada, muitas mulheres são forçadas a abandonar seus empregos, estudos e vida social para se dedicarem integralmente aos cuidados com a família e a casa.

Essa renúncia, muitas vezes imposta por pressões sociais e culturais, limita a autonomia feminina e as oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. O isolamento resultante pode intensificar a dependência em relação ao parceiro, tornando ainda mais complexa a decisão de romper com um relacionamento abusivo.

Os Alarmantes Números da Violência de Gênero no Brasil

A gravidade da violência sofrida pelas mulheres no Brasil é inegável e comprovada por estatísticas preocupantes. Em 2025, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio, um aumento de 4% em comparação ao ano anterior, o que equivale a mais de quatro mortes por dia. Oito em cada dez desses crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros, evidenciando a proximidade do agressor.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, detalha ainda mais o cenário. O levantamento aponta 286,3 mil registros de agressão doméstica, um aumento de 2,6%, e 788,6 mil casos de ameaças, com alta de 0,5%. Preocupa também o crescimento de 16,7% nos episódios de Descumprimento de Medida Protetiva de Urgência, totalizando 132 mil casos, um dos mecanismos cruciais da Lei Maria da Penha para a proteção das vítimas.

Dependência e o Ciclo do Abuso: Barreiras Psicológicas e Financeiras

A dependência financeira é um dos fatores mais citados que impedem as mulheres de romperem relacionamentos violentos. No entanto, a advogada e professora universitária Marilha Boldt, presidente da Comissão de Combate à Violência contra a Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ, acrescenta a dependência psicológica como um elemento igualmente aprisionador. Ela explica que, mesmo mulheres com alta renda podem ser controladas financeiramente pelo parceiro, criando uma ilusão de dependência.

Marilha Boldt, que já foi vítima de violência doméstica e hoje lidera um grupo de acolhimento, ressalta que a violência psicológica mina a autoconfiança das mulheres. “Elas têm muita potencialidade, mas não se enxergam como potenciais por conta da violência psicológica que acabaram sofrendo”, afirma, destacando como essa forma de abuso as impede de reconhecer sua própria capacidade de superação e autonomia.

O Desafio do Patriarcado e as Políticas de Enfrentamento

A superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Secretaria Estadual e de Políticas Inclusivas do Rio de Janeiro, Claudia Araujo, aponta o sistema patriarcal como um dos principais obstáculos para o rompimento do ciclo de agressão. Essa estrutura social, que historicamente subordina a mulher ao homem, reforça a ideia de que a mulher deve ser a principal responsável pelo lar e pela família, perpetuando a sobrecarga e a dependência.

Apesar dos desafios, a criação da Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei 5.069/2024 em dezembro de 2024, representa um avanço significativo. Thamires Ribeiro vê nessa política uma oportunidade de promover a corresponsabilização social entre homens e mulheres, reduzir a sobrecarga feminina e garantir acesso à renda e a espaços de acolhimento. Tais medidas são essenciais para que as mulheres possam construir ferramentas e estratégias eficazes para sair de situações de violência.

A luta contra a violência de gênero e a sobrecarga doméstica é um esforço contínuo que exige a atenção e o engajamento de toda a sociedade. Compreender a complexidade desses fatores é o primeiro passo para construir um futuro mais justo e seguro para todas as mulheres. Para continuar acompanhando análises aprofundadas, notícias relevantes e contextualizadas sobre temas que impactam o dia a dia da sociedade, acesse o Fato Paulista. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma cobertura ampla e diversificada para manter você sempre bem informado.

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