A literatura brasileira ganha um novo capítulo de preservação histórica com o lançamento de Escreviventes, obra publicada pela Pallas Editora que materializa o diálogo entre duas das vozes mais potentes do país: Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. O livro, apresentado ao público durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), nasce de uma conversa profunda gravada na Kaza 123, um quilombo urbano situado em Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
Diálogo sobre literatura e vivência
Ao longo de dois dias de imersão, as autoras percorreram temas que estruturam tanto suas trajetórias pessoais quanto suas produções literárias. Entre os tópicos abordados estão o racismo, a maternidade, o envelhecimento, a amizade e a própria essência da escrita. Para Conceição Evaristo, o projeto é um exercício fundamental de direito à memória, especialmente significativo por coincidir com marcos importantes: a escritora celebra 80 anos de vida, enquanto Eliana Alves Cruz comemora 60.
O conceito de escrevivência, cunhado por Evaristo, é o fio condutor da obra. A autora reforça que o termo não se limita ao relato autobiográfico ou à memória estática, mas exige um processo contínuo de ficcionalização. “Só escreve ficção quem conhece a realidade”, afirmou a escritora durante o lançamento na Casa Estante Virtual, ressaltando que a experiência do mundo é o que permite ao autor elaborar narrativas complexas e, por vezes, criar memórias que dialogam com a história coletiva.
Memória e o desafio do registro
Eliana Alves Cruz destacou a urgência de iniciativas como esta, apontando uma lacuna histórica na documentação sobre grandes intelectuais negras, como Lélia Gonzalez. Para a autora, a celebração da obra literária muitas vezes não é acompanhada pelo registro biográfico e humano necessário para perpetuar o legado desses nomes. “Toda e qualquer oportunidade que a gente tenha para registrar as pessoas, a gente precisa usar”, pontuou.
Apesar da relevância, a escritora fez um alerta sobre as dificuldades enfrentadas no setor audiovisual brasileiro para viabilizar projetos que tratam da história e da memória negra. Segundo ela, embora a democratização da literatura tenha avançado com o auxílio da tecnologia e dos formatos digitais, o cenário para produções audiovisuais que deem continuidade a esse debate ainda é marcado por obstáculos significativos.
Legado para a literatura brasileira
A obra Escreviventes inaugura a coleção Memórias Brasileiras e serve como um prelúdio para um documentário homônimo, dirigido por Estevão Ribeiro, com estreia prevista para festivais em 2027. Para as autoras, o registro é uma forma de cobrar o devido reconhecimento da literatura brasileira, que, segundo Evaristo, é devedora tanto das mulheres escritoras quanto dos autores negros.
Ao consolidar esse encontro, o livro se posiciona não apenas como um produto editorial, mas como um documento histórico. A iniciativa reforça a importância de que as trajetórias de figuras centrais da cultura nacional sejam preservadas com o rigor e a profundidade que o portal Agência Brasil tem acompanhado ao longo da trajetória de ambas.
O Fato Paulista segue atento aos desdobramentos da literatura contemporânea e aos movimentos que buscam ampliar a representatividade e o registro histórico no Brasil. Continue acompanhando nosso portal para mais informações sobre cultura, sociedade e os principais eventos que movimentam o cenário nacional.




