O Brasil testemunhou neste fim de semana a culminância do Julho das Pretas, um mês dedicado à intensa agenda de ações e mobilizações contra o racismo e pela afirmação dos direitos das mulheres negras. Manifestações vibrantes tomaram as ruas de diversas cidades do país, coroando um período de reflexão, luta e celebração da força e resiliência feminina negra. A escolha de julho para esta importante agenda não é aleatória; o mês abriga o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado anualmente em 25 de julho.
Este movimento nacional, que ganha força a cada ano, serve como um poderoso lembrete das profundas desigualdades históricas e estruturais que ainda persistem na sociedade brasileira. As marchas e debates ocorridos reforçaram a necessidade urgente de políticas públicas e mudanças sociais que garantam dignidade e justiça para as mulheres negras, que são a base de muitas comunidades e famílias no Brasil.
Mulheres Negras e a Luta por Reparação e Bem Viver
No centro das discussões e reivindicações em todas as cidades, duas pautas fundamentais se destacaram, ecoando a voz de milhares de mulheres negras por todo o território nacional. A primeira delas é a exigência de reparação pelas responsabilidades históricas do Estado e da sociedade na perpetuação da desigualdade racial e de gênero. Este pedido reconhece o legado da escravidão e do racismo estrutural, que ainda hoje impactam desproporcionalmente a vida das mulheres negras.
A segunda pauta central é o conceito de Bem Viver, um modelo de sociedade que transcende a lógica do consumo e do individualismo. O Bem Viver valoriza o cuidado mútuo, a ancestralidade como fonte de sabedoria e identidade, e a coletividade como pilar para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. O objetivo é claro: alcançar a justiça social plena e a preservação da vida em todas as suas formas, promovendo um futuro onde todas as pessoas possam prosperar.
Mobilização Abrangente: Vozes por Todo o Brasil
A amplitude do Julho das Pretas em 2026 demonstra a crescente articulação e organização das mulheres negras brasileiras. O Odara – Instituto da Mulher Negra, principal articulador da agenda, coordenou um impressionante número de atividades. Ao longo de julho, foram quase 700 atividades realizadas por mais de 290 coletivos, espalhados por 23 estados brasileiros e o Distrito Federal, conforme reportado pela Agência Brasil. Essa capilaridade ressalta a força e a diversidade do movimento, que consegue mobilizar diferentes realidades e demandas regionais sob uma mesma bandeira de luta.
A agenda de mobilização teve seu pontapé inicial com a Marcha das Mulheres Negras de Pernambuco, realizada em Recife na sexta-feira, 24 de julho. As participantes se concentraram no Parque Treze de Maio e marcharam até o Pátio do Carmo, denunciando a persistente sub-representação das mulheres negras nos espaços de poder e decisão, um reflexo da exclusão histórica que as afeta.
Marchas Regionais: Ancestralidade e Poder Político
No sábado, 25 de julho, o dia da celebração internacional, atos significativos foram realizados em pelo menos três capitais. Em Belo Horizonte (MG), as manifestações não apenas ecoaram as pautas nacionais, mas também prestaram uma justa homenagem aos 12 anos da Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela. Essa organização atua incansavelmente na capital mineira em defesa de uma categoria majoritariamente composta por mulheres negras, evidenciando a intersecção entre raça, gênero e classe social.
Em Belém (PA), a marcha celebrou sua 11ª edição, percorrendo os arredores da Praça da República, no Centro. A escolha do local foi carregada de simbolismo, como destacou Flávia Vieira, uma das organizadoras do evento, ao explicar que parte da praça foi erguida sobre um cemitério de pessoas escravizadas. Essa conexão profunda com o passado marcou o tema da marcha deste ano em Belém: “Ancestralidade, um projeto de futuro que se faz agora”.
Flávia Vieira enfatizou a importância do engajamento cívico: “É um tema que nos convida a refletir sobre a importância dos direitos humanos, e a importância que precisamos dar para o nosso voto. Nós somos o maior grupo político e nós vamos decidir as eleições, então nós precisamos escolher bem as pessoas que vão nos representar”. Sua fala ressalta o poder político das mulheres negras e a necessidade de uma representação que verdadeiramente atenda às suas demandas.
No mesmo sábado, Salvador (BA) foi palco de uma vibrante marcha e celebração. Beatriz Souza, integrante do Odara – Instituto da Mulher Negra, expressou sua alegria com o aumento da participação a cada edição. Ela descreveu o evento como “um sábado perfeito, em que nós pudemos estar nas ruas com a força das yabás, pedindo licença para Exu, colocando as nossas crianças na frente da marcha. Foi um momento lindo que nos fez acreditar que é possível sonhar com um novo mundo e, principalmente, construir um novo mundo, com pactos novos de Bem Viver, igualdade e justiça para as pessoas”. A menção às yabás e a Exu sublinha a forte conexão com a espiritualidade e a ancestralidade africana, elementos intrínsecos à cultura e resistência negra no Brasil.
A mobilização do Julho das Pretas não se encerra com as marchas; ela se estende por todo o mês, com uma programação diversificada que inclui debates, oficinas, rodas de conversa e atividades culturais. Essas ações visam não apenas denunciar as injustiças, mas também fortalecer a identidade, promover o autocuidado e construir redes de apoio entre as mulheres negras, impulsionando a luta por um futuro mais justo e igualitário para todos.
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