O jornalismo brasileiro amanheceu de luto nesta quinta-feira (16) com a notícia do falecimento de Renato Machado, um dos mais respeitados e icônicos nomes da televisão e da imprensa nacional. Aos 83 anos, o jornalista morreu na Clínica São Vicente, localizada na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada pela unidade hospitalar, que apenas confirmou o óbito e expressou suas condolências à família, conforme noticiado pela Agência Brasil.
A partida de Machado representa a perda de uma voz que marcou gerações, especialmente por sua longa e influente passagem pela TV Globo, onde foi âncora e editor-chefe do Bom Dia Brasil por 15 anos. Sua carreira, no entanto, transcendeu as bancadas de telejornais, abrangendo rádio, teatro, reportagens internacionais e uma profunda paixão por temas como vinhos, que também compartilhou com o público.
A rica trajetória de Renato Machado no jornalismo
Nascido em 21 de março de 1943, no Rio de Janeiro, Renato Machado era filho de Álvaro Dodsworth Machado, médico e oficial do Exército, e Fernanda Mattos Machado, secretária bilíngue. Sua formação acadêmica em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) demonstrava uma base sólida para a análise crítica e a compreensão de contextos complexos, habilidades que seriam cruciais em sua futura profissão.
Antes de se dedicar integralmente ao jornalismo, Machado explorou outras vertentes artísticas. Atuou como ator e dublador de cinema, e teve uma experiência notável no renomado Teatro Oficina, em São Paulo, o que lhe conferiu uma desenvoltura e presença de palco que mais tarde se tornariam marcas registradas de sua comunicação. Em 1967, sua curiosidade pelo mundo o levou a Londres, onde foi aprovado em um concurso da BBC e trabalhou com rádio, aprimorando sua visão global e fluência em inglês e francês.
Dois anos depois, em 1969, Renato Machado retornou ao Rio de Janeiro e foi contratado pelo Jornal do Brasil como tradutor. Rapidamente, sua capacidade e perspicácia o impulsionaram para a reportagem, onde permaneceu por 14 anos, chegando a assumir a importante função de editor de Internacional. Essa fase no Jornal do Brasil foi fundamental para consolidar sua expertise em política externa e grandes eventos globais, preparando-o para os desafios que viriam na televisão.
A experiência internacional e os grandes momentos
A transição para a televisão ocorreu em 1982, quando Renato Machado ingressou no jornalismo da TV Globo como repórter. Sua vasta experiência em assuntos internacionais e o domínio de idiomas estrangeiros o tornaram um nome indispensável para coberturas complexas. No mesmo ano, ele participou ativamente da cobertura da Guerra das Malvinas, trabalhando tanto do Rio de Janeiro quanto da Argentina, trazendo ao público brasileiro uma perspectiva aprofundada sobre o conflito.
Em 1983, Machado foi convidado para ser correspondente da Globo em Londres, onde permaneceu por seis anos, reportando os principais acontecimentos da Europa e do mundo. Esse período como correspondente internacional solidificou sua reputação como um jornalista de visão ampla e análise perspicaz. Após retornar ao Brasil em 1988 como repórter especial, ele teve uma breve passagem pela TV Manchete em 1990, onde foi editor-chefe e apresentador do telejornal Noite e Dia, antes de retornar à TV Globo em 1991.
Nos cinco anos seguintes, Renato Machado se dedicou a cobrir a América Latina como enviado especial do Globo Repórter e do Jornal Nacional. Sua presença foi marcante em eventos históricos para o Brasil, como o processo de impeachment do presidente Fernando Collor em 1992 e a trágica morte do piloto Ayrton Senna em 1994, momentos que exigiram sensibilidade, rigor e capacidade de contextualização para milhões de telespectadores.
O legado no Bom Dia Brasil e a reformulação do telejornal
O ano de 1996 marcou um dos capítulos mais significativos da carreira de Renato Machado, quando ele assumiu o posto de âncora e editor-chefe do Bom Dia Brasil. Sua chegada foi determinante para uma profunda reformulação do formato e da apresentação visual do telejornal matinal, que se tornou uma referência em informação e análise no horário. Com um estilo próprio, que mesclava seriedade com um toque de informalidade e inteligência, Machado conquistou a audiência e consolidou o programa como um dos pilares da grade da TV Globo.
Durante 15 anos à frente do Bom Dia Brasil, Renato Machado dividiu a bancada com jornalistas renomadas, inicialmente com Leilane Neubarth e, posteriormente, com Renata Vasconcellos. Sua capacidade de conduzir entrevistas, mediar debates e apresentar as notícias com clareza e profundidade o transformaram em uma figura familiar e confiável para os brasileiros que começavam o dia informados por ele. O telejornal, sob sua liderança, não apenas reportava os fatos, mas também os contextualizava, oferecendo ao público uma compreensão mais completa dos acontecimentos.
Paixões além da bancada e o adeus à TV
Em setembro de 2011, Renato Machado se afastou da bancada do Bom Dia Brasil para retomar sua função de correspondente da Globo em Londres. Nesse período, ele também manteve uma coluna semanal no Jornal da Globo, intitulada Crônicas de Renato Machado, onde abordava questões políticas e sociais com sua habitual perspicácia. Essa fase permitiu-lhe revisitar a experiência internacional e continuar a contribuir com análises aprofundadas.
Seu retorno ao Rio de Janeiro em janeiro de 2016 o trouxe de volta como repórter especial do Globo Repórter, onde pôde explorar temas mais aprofundados e narrativas longas, características do programa. Além de sua dedicação ao jornalismo televisivo, Renato Machado cultivava uma grande paixão por vinhos, tema sobre o qual escreveu para diversos jornais e revistas, compartilhando seu conhecimento e apreço pela cultura enogastronômica. Ele também colaborou com a rádio CBN, ampliando ainda mais seu alcance e diversidade de atuação.
Após uma carreira de mais de cinco décadas, marcada por profissionalismo, versatilidade e um compromisso inabalável com a informação de qualidade, Renato Machado deixou a TV Globo em novembro de 2021. Sua partida deixa um vazio no jornalismo brasileiro, mas seu legado de integridade, curiosidade e excelência continuará a inspirar novas gerações de profissionais da comunicação. Ele será lembrado como um dos grandes nomes que moldaram a forma como o Brasil se informa e compreende o mundo.
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