Aracaju: catadoras de mangaba defendem território e tradição contra especulação

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Em Aracaju, catadoras de mangaba resistem à especulação imobiliária, defendendo seu território, tradição e o fruto que é símbolo cultural de Sergipe.
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© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Em meio ao avanço implacável da urbanização, um grupo de mulheres em Aracaju, Sergipe, emerge como um símbolo de resistência e guardiãs de um tesouro natural e cultural: a mangaba. Este fruto, que é um dos principais ícones ambientais e culturais do estado, tornou-se o epicentro de uma batalha pela preservação de territórios extrativistas, essenciais para o sustento de dezenas de famílias e a manutenção de um modo de vida profundamente integrado à natureza.

Na região sul da capital sergipana, onde se concentram as últimas remanescentes de mangabeiras, a pressão imobiliária é intensa. Esta expansão urbana ameaça diretamente a autonomia econômica e social das mulheres que dependem da coleta, ou “cata”, e do manejo do fruto, colocando em risco não apenas sua subsistência, mas também um legado de saberes tradicionais.

O Legado da Mangaba e a Pressão Urbana

A mangaba representa muito mais do que um simples fruto para as comunidades de Aracaju. Ela é a base de uma economia familiar, um elo com a ancestralidade e um elemento central na identidade cultural sergipana. A sua presença nas áreas verdes da cidade é um lembrete constante da rica sociobiodiversidade da Mata Atlântica e da importância de sua conservação.

A presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL), Maria Eliene Santos, expressa a dimensão dessa luta: “A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade”. Sua declaração reflete a urgência e a profundidade do desafio enfrentado por essas comunidades, que veem seu espaço vital diminuir a cada novo empreendimento.

Organização e Reconhecimento Nacional

Diante da crescente ameaça, a organização comunitária tem sido a principal ferramenta de defesa. A ACCMPLL atua como a espinha dorsal política e social das famílias extrativistas na capital. A associação desempenha um papel fundamental na orientação da produção, na salvaguarda dos conhecimentos tradicionais e na interlocução com o Poder Público, buscando garantir os direitos e a visibilidade dessas comunidades.

O reconhecimento do trabalho da ACCMPLL veio no ano passado, quando a entidade conquistou o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A premiação, que destinou R$ 45 mil à associação, impulsionou iniciativas importantes.

Os recursos foram investidos na realização de oficinas e estudos focados no aprimoramento do beneficiamento da mangaba e no desenvolvimento do turismo de base comunitária na região. Essas ações contaram com o apoio de instituições de peso como a Universidade Federal do Sergipe (UFS) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), fortalecendo a cadeia produtiva e a sustentabilidade local.

A Defesa do Território e o Plano de Manejo Popular

O território das catadoras de mangaba em Aracaju é composto por duas áreas protegidas adjacentes, embora separadas por uma via: a Reserva Extrativista (Resex) Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e uma área da União, concedida à comunidade por meio de um Termo de Autorização de Uso Sustentável. Juntas, essas áreas formam um único e indivisível território cultural, onde famílias, em sua maioria de ascendência negra, praticam o extrativismo da mangaba há mais de oito décadas.

No início de junho, a 5ª Festa da Colheita na Resex Uilson de Sá marcou um momento histórico: o lançamento do Plano de Manejo Popular da reserva. Este documento, fruto de um esforço coletivo das famílias catadoras de mangaba e com o suporte da associação, visa registrar a memória histórica, incentivar a conservação, realizar uma cartografia ecológica detalhada e subsidiar a gestão participativa do território, garantindo que as decisões sejam tomadas de baixo para cima.

Leandro Sacramento Santos, conhecido como Pel, da Associação Raízes, que presta assessoria a comunidades tradicionais em Sergipe, explica a importância estratégica do plano: “O plano de manejo foi uma maneira que a gente encontrou, junto com a comunidade, de reorganizar todo mundo em torno da continuidade da luta em defesa do território. A gente ficou com medo de a prefeitura de Aracaju aparecer com um plano pronto e impor regras que não tinham nada a ver com a comunidade”.

O Conflito com a Gestão Pública e o Futuro da Mangaba

A elaboração do Plano de Manejo Popular reflete uma preocupação legítima das catadoras com a interferência externa. Uma das principais controvérsias com a prefeitura de Aracaju, por exemplo, gira em torno da ideia de transformar a Resex em um parque urbano aberto. Para as catadoras, essa mudança representaria uma ameaça direta ao seu modo de vida, à segurança do território e à própria integridade das mangabeiras nativas.

A abertura irrestrita do espaço, sem o controle da comunidade, poderia descaracterizar a reserva, comprometer a coleta sustentável e diluir os conhecimentos tradicionais. A luta em Aracaju, portanto, transcende a defesa de um fruto; é a defesa de um modelo de desenvolvimento que valoriza a cultura, a natureza e as pessoas que dela dependem, em contraponto a um crescimento urbano que muitas vezes ignora essas dimensões.

A resistência das catadoras de mangaba em Aracaju é um exemplo vibrante da luta de comunidades tradicionais em todo o Brasil, que buscam proteger seus territórios e modos de vida frente à expansão desenfreada. A valorização do extrativismo urbano e da sabedoria popular é crucial para a manutenção da sociobiodiversidade e para a construção de cidades mais justas e sustentáveis.

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