Hepatites virais: o perigo silencioso e as estratégias de prevenção

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Hepatites virais são uma ameaça silenciosa. Entenda como os diferentes tipos se manifestam, seus riscos e as formas eficazes de prevenção.
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José Felipe Batista/Comunicação Instituto Butantan
Doses de vacina contra hepatite. Foto: José Felipe Batista/Comunicação Instituto Butantan

A fadiga persistente, febre, mal-estar, enjoo e a característica pele amarelada são sintomas frequentemente associados às hepatites virais. Contudo, a realidade é que uma parcela significativa das pessoas infectadas jamais manifesta esses sinais. Essa ausência de sintomas torna o diagnóstico um desafio, permitindo que a doença progrida silenciosamente por anos, causando danos progressivos e muitas vezes irreversíveis ao fígado.

Os números globais e nacionais sublinham a gravidade do cenário. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 304 milhões de indivíduos em todo o mundo convivem com hepatite B ou C, formas que comumente evoluem para infecções crônicas e complicações severas. Juntos, esses dois vírus são responsáveis por mais de um milhão de mortes anualmente. No Brasil, o Boletim Epidemiológico Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, revelou mais de 800 mil casos confirmados e aproximadamente 45 mil óbitos relacionados aos tipos A, B, C e D entre os anos 2000 e 2024.

“Um dos principais obstáculos para o controle das hepatites é a baixa taxa de diagnóstico. Como muitas pessoas não têm ideia de que convivem com a doença, elas acabam transmitindo o vírus sem saber”, alerta Eolo Morandi, gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan. Essa invisibilidade da doença ressalta a urgência de campanhas de conscientização e acesso facilitado a testes. Embora todas as hepatites virais causem inflamação no fígado, os tipos A, B, C, D e E diferem significativamente em suas formas de transmissão, gravidade e, crucialmente, nos métodos de prevenção.

A Ameaça Silenciosa das Hepatites Virais

A natureza insidiosa das hepatites virais é um dos seus maiores desafios. Enquanto alguns pacientes experimentam os sintomas clássicos, muitos outros permanecem assintomáticos por longos períodos, transformando a infecção em uma bomba-relógio silenciosa. A ausência de dor ou desconforto evidente impede que as pessoas busquem ajuda médica, atrasando o diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento.

A evolução para a cronicidade, especialmente nos tipos B e C, é o que eleva o risco de complicações graves como cirrose hepática e carcinoma hepatocelular (câncer de fígado). A falta de conhecimento sobre a própria condição não só compromete a saúde do indivíduo, mas também contribui para a cadeia de transmissão, perpetuando a circulação dos vírus na população. A conscientização sobre a importância do teste, mesmo na ausência de sintomas, é um pilar fundamental para reverter esse cenário.

Hepatite A: Vigilância na Água e Alimentos

A hepatite A é transmitida predominantemente pela via fecal-oral, o que significa que a infecção ocorre, em grande parte, pelo consumo de água ou alimentos contaminados com resíduos fecais. O contato pessoal próximo, comum em ambientes como creches ou instituições de longa permanência, e práticas sexuais que envolvem contato oral-anal também são vias de disseminação.

No Brasil, o boletim do Ministério da Saúde indicou que as regiões Nordeste e Norte concentraram a maioria dos casos confirmados entre 2000 e 2024. Mais recentemente, houve um aumento na incidência impulsionado pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde a doença passou a afetar mais a população adulta, especialmente homens. “Trata-se de uma doença que está bastante relacionada a condições precárias de saneamento básico e higiene, fatores que acabam facilitando a circulação do vírus no ambiente”, pontua Eolo Morandi.

Os sintomas mais comuns incluem fadiga, mal-estar, febre, dores musculares, enjoo, vômitos, dor abdominal e diarreia. Sinais de comprometimento hepático, como urina escura, fezes claras e icterícia, podem surgir. Diferente dos tipos B e C, a hepatite A raramente evolui para infecção crônica, apresentando caráter benigno e autolimitado na maioria dos casos, com recuperação espontânea. Contudo, pessoas acima dos 50 anos podem ter maior risco de formas graves. Não há tratamento específico, sendo recomendado repouso, dieta equilibrada e hidratação, além de evitar automedicação.

A vacinação é a principal ferramenta de prevenção. O Instituto Butantan fornece a vacina contra hepatite A ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), aplicada em dose única aos 15 meses de vida. Recentemente, o Ministério da Saúde ampliou a oferta de duas doses para grupos específicos, como usuários de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) e pessoas com doenças hepáticas crônicas. Boas práticas de higiene, como lavar as mãos, higienizar alimentos crus e consumir água potável, são essenciais, assim como a proteção durante relações sexuais.

Hepatite B: Transmissão por Sangue e Fluidos Corporais

A transmissão da hepatite B ocorre pelo contato com sangue ou outros fluidos corporais infectados. Uma das formas mais comuns em áreas de alta endemicidade é a perinatal, de mãe para filho durante o parto. Outras vias incluem contato sexual desprotegido, compartilhamento de agulhas e seringas, transfusões de sangue não testado, acidentes com materiais perfurocortantes, e procedimentos como tatuagens e piercings com equipamentos contaminados.

Quando presentes, os sintomas são semelhantes aos da hepatite A: fadiga, febre, mal-estar, dor abdominal, náuseas, urina escura e icterícia. “O maior desafio da hepatite B está na sua capacidade de se tornar crônica, quando o organismo não consegue eliminar o vírus”, explica o gestor médico do Instituto Butantan. Nesses casos, a infecção pode permanecer silenciosa por décadas antes de evoluir para cirrose hepática e câncer de fígado.

O risco de cronificação varia drasticamente com a idade da infecção. A OMS aponta que cerca de 90% a 95% das crianças infectadas no primeiro ano de vida desenvolvem a forma crônica, enquanto esse risco é inferior a 5% para adultos. Por isso, a primeira dose da vacina contra a hepatite B deve ser aplicada nas primeiras 24 horas de vida. O Instituto Butantan também é responsável por ofertar o produto ao PNI. Crianças recebem quatro doses (ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses), e adultos, três doses. Além da vacinação, a prevenção envolve o uso de preservativo e práticas seguras em procedimentos médicos, odontológicos e estéticos. No Brasil, a maioria dos casos de hepatite B concentra-se nas regiões Sudeste e Sul.

Hepatite C: O Desafio da Cura e a Importância do Diagnóstico

A hepatite C é a principal causa de óbitos associados às hepatites virais no Brasil, respondendo por mais de 75%. Sua principal forma de transmissão é pelo contato com sangue contaminado, frequentemente por compartilhamento de agulhas e seringas. Dados da OMS indicam que usuários de drogas injetáveis representam 44% das novas infecções. Outras formas incluem procedimentos médicos e estéticos sem esterilização e, menos frequentemente, via sexual ou perinatal.

Assim como outros tipos, os sintomas são frequentemente ausentes ou inespecíficos, como fadiga, náuseas, urina escura e icterícia. A infecção pode evoluir para a forma crônica, que, se não tratada, progride para fibrose avançada, cirrose e câncer de fígado. Diferentemente das hepatites A e B, ainda não existe vacina contra a hepatite C. A prevenção baseia-se no controle da exposição ao sangue, na redução de danos para usuários de drogas e na testagem espontânea para diagnóstico precoce.

Apesar da ausência de imunizantes, a hepatite C tornou-se uma doença potencialmente curável graças aos avanços dos tratamentos antivirais, mesmo em sua forma crônica. O protocolo de cuidado, feito com Antivirais de Ação Direta (AADs) ao longo de algumas semanas, apresenta taxas de cura superiores a 95%. No Brasil, o tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Hepatites D e E: Formas Menos Comuns, Mas Relevantes

Embora menos frequentes que os tipos A, B e C, as hepatites D e E possuem características que as tornam importantes para a vigilância em saúde pública. A hepatite D, por exemplo, é única entre as hepatites virais por só conseguir infectar e se replicar em pessoas que já possuem o vírus da hepatite B. Sua transmissão ocorre, principalmente, pelo contato com sangue ou fluidos corporais contaminados. A coinfecção ou superinfecção pelo vírus D pode agravar significativamente a doença hepática causada pelo vírus B, levando a formas mais severas e progressão mais rápida para cirrose e insuficiência hepática.

Já a hepatite E, que o boletim do Ministério da Saúde começa a abordar, é transmitida principalmente pela via fecal-oral, similar à hepatite A, geralmente através de água ou alimentos contaminados. Embora na maioria dos casos seja uma infecção autolimitada e benigna, pode ser particularmente grave em gestantes, resultando em altas taxas de mortalidade, e em pessoas imunocomprometidas. A prevenção da hepatite E foca em saneamento básico adequado e higiene alimentar rigorosa, especialmente em regiões onde o vírus é endêmico.

A complexidade das hepatites virais exige uma abordagem multifacetada, combinando vacinação, saneamento, práticas seguras e, acima de tudo, diagnóstico precoce. A informação é a primeira linha de defesa contra essas doenças silenciosas. Mantenha-se informado e consciente sobre os riscos e as formas de prevenção. O Fato Paulista está comprometido em trazer a você informações relevantes e contextualizadas sobre saúde e muitos outros temas, para que você esteja sempre à frente. Continue acompanhando nosso portal para um conteúdo de qualidade e credibilidade.

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