Um reconhecimento tardio pela democracia
Cinquenta e cinco anos após ter sua trajetória interrompida pela violência do Estado, Stuart Edgard Angel Jones foi finalmente reconhecido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em uma cerimônia marcada por forte carga emocional no Salão Dourado, na Praia Vermelha, a instituição concedeu o diploma de bacharel em ciências econômicas ao estudante, que foi sequestrado, torturado e assassinado em 1971, aos 25 anos, durante o regime militar.
O ato de entrega do diploma não é apenas um gesto simbólico, mas uma medida de reparação histórica. Stuart, que militava no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), teve sua vida ceifada antes de concluir a graduação. A iniciativa de buscar o reconhecimento partiu de sua irmã, a jornalista Hildegard Angel, em conjunto com o economista Lucas Duda, ex-membro do Centro Acadêmico Stuart Angel (CASA).
A construção da memória e a luta de Zuzu Angel
A diplomação póstuma resgata, também, a incansável busca de Zuzu Angel, mãe de Stuart e renomada estilista, que dedicou seus últimos anos de vida a denunciar o desaparecimento do filho. Para Hildegard, o momento é uma vitória substancial no ativismo pela memória dos heróis da resistência. “Zuzu foi a essência da missão da maternidade de exigir o corpo de seu filho, já que a morte era confirmada”, afirmou a jornalista durante o evento.
O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, destacou que a universidade tem o dever de manter viva a história de Stuart. Para os atuais 70 mil alunos da instituição, o diploma representa uma lição sobre a importância de preservar a democracia. “Vivemos um tempo terrível que não pode retornar. Os jovens têm a responsabilidade de não permitir que voltemos a um período tão obscuro”, pontuou o reitor.
Reparação histórica e novos desdobramentos
O processo de reparação ganhou contornos oficiais em 2019, quando o Estado brasileiro retificou o atestado de óbito de Stuart Angel, reconhecendo que sua morte foi violenta e causada por perseguição política. Este reconhecimento é um passo fundamental para que a história do país seja contada com a fisionomia verdadeira dos fatos, sem omissões.
A UFRJ não pretende parar nesta homenagem. A instituição planeja diplomar outros 25 alunos que foram mortos ou desapareceram durante o regime militar. A lista, baseada no relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), inclui nomes como Ana Maria Nacinovic, Jana Moroni Barroso e Sonia Maria Lopes de Moraes. O professor José Sérgio Leite Lopes, coordenador da Comissão de Memória e Verdade da UFRJ, trabalha para que a próxima cerimônia ocorra em agosto, consolidando o papel da universidade como um espaço de justiça e reflexão.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos dessa iniciativa de memória e reparação, reafirmando seu compromisso com o jornalismo de qualidade e a cobertura de temas que moldam a identidade e a história do Brasil. Continue conosco para mais informações sobre direitos humanos, educação e atualidades.



