Desvendando a vacina da gripe: como a vigilância global do influenza define as cepas do imunizante

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Entenda como a vigilância global do vírus influenza e a ciência definem as cepas anuais da vacina da gripe para proteger a população.
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Marília Ruberti/Comunicação Instituto Butantan)
Cepa do vírus influenza utilizada em uma das formulações da vacina da gripe (Foto: Marília Ruberti/Comunicação Instituto Butantan

Todos os anos, meses antes do início das campanhas de vacinação contra a gripe, a comunidade científica global se debruça sobre uma questão fundamental: quais cepas do vírus influenza serão as mais prevalentes nas próximas temporadas, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul? A resposta a essa pergunta crucial é fruto de uma extensa e complexa rede de vigilância global, que monitora a evolução constante do vírus e orienta a formulação das vacinas anuais. No Brasil, essa pesquisa é essencial para a produção de imunizantes como a versão trivalente fabricada pelo Instituto Butantan e distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“Este é um esforço contínuo e coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que envolve centenas de laboratórios em mais de 130 países”, explica Isabela Carvalho Brcko, pesquisadora especialista em vírus respiratórios e pós-doutoranda do Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS) do Instituto Butantan. Esse trabalho minucioso de vigilância é o que permite transformar dados coletados em diversas partes do mundo na composição de milhões de doses de vacina, essenciais para proteger a população contra um vírus que está em constante mutação. A OMS estima que cerca de um bilhão de casos de gripe sazonal ocorram anualmente, com três a cinco milhões deles podendo evoluir para quadros graves.

A complexidade do vírus influenza e suas variações

O vírus influenza possui características singulares, sendo a sua variedade uma das mais notáveis. Atualmente, a ciência reconhece três tipos principais que circulam entre humanos: Influenza A, B e C. No entanto, apenas os tipos A e B são responsáveis por causar as epidemias sazonais que afetam a saúde pública globalmente.

O Influenza A, por exemplo, é categorizado em subtipos com base na combinação de duas proteínas presentes em sua superfície: a hemaglutinina (HA) e a neuraminidase (NA). A HA é crucial para o reconhecimento e infecção das células do trato respiratório, enquanto a NA atua na liberação das partículas virais no organismo. Já foram identificados 18 subtipos de HA e 11 de NA. As combinações mais comuns que circulam entre a população humana são o influenza A(H1N1) e A(H3N2), o que justifica a inclusão de ambos na formulação da vacina da gripe.

O vírus influenza B, embora também possua HA e NA, é subdividido em duas linhagens conhecidas: Victoria e Yamagata. Contudo, desde 2020, não há registros da circulação da linhagem Yamagata. Cientistas levantam a hipótese de que as rigorosas restrições sanitárias e sociais implementadas durante a pandemia de Covid-19 podem ter contribuído para a possível extinção desse subtipo. Diante desse cenário, a OMS tem recomendado a inclusão apenas da cepa Victoria na composição do imunizante trivalente.

A dinâmica das mutações e a necessidade da vacina anual

Uma das características mais desafiadoras do vírus influenza é sua notável capacidade de mutação. Essa é uma estratégia biológica e evolutiva que garante a “sobrevivência” do microrganismo. “Geralmente, essas transformações se acumulam na região do epítopo, a ‘cabeça’ da hemaglutinina, que é a área responsável por reconhecer e se fixar nas células saudáveis do hospedeiro”, detalha a pesquisadora Isabela Brcko.

Com o tempo, o acúmulo dessas mutações permite que o vírus “escape” da resposta imunológica desenvolvida pelo organismo, resultando no surgimento de uma nova variante. É essa constante variação antigênica que explica por que uma pessoa pode ser infectada diversas vezes pelo vírus influenza ao longo da vida e por que a formulação da vacina da gripe precisa ser atualizada anualmente para manter sua eficácia.

“Nem todos os vírus da gripe mudam no mesmo ritmo. O subtipo A(H3N2), por exemplo, apresenta uma velocidade de mutação superior à do A(H1N1). Já o Influenza B é ainda mais lento em suas transformações”, observa a pós-doutoranda do CeVIVAS. Além das mutações graduais, existe a possibilidade de um rearranjo antigênico, um processo de mutação muito mais abrupto que envolve a troca completa de um ou mais segmentos do genoma viral. “Essas mudanças podem impactar diretamente a infectividade, ou seja, a capacidade de dispersão do vírus, fazendo com que ele se replique rapidamente, ou a virulência, provocando uma doença com sintomas mais fortes e maior gravidade”, complementa a especialista.

O papel fundamental do Brasil na vigilância da gripe

Desde o final da década de 1940, a vigilância do vírus da gripe é uma iniciativa global coordenada pela OMS. Seu principal objetivo é recomendar as atualizações anuais na composição dos imunizantes para os hemisférios Sul e Norte, além de identificar precocemente mutações que possam ser alarmantes. Isso permite a rápida adoção de estratégias para conter a disseminação e mitigar o impacto do vírus em escala mundial.

Atualmente, essa tarefa é liderada pelo Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe (GISRS), uma rede que congrega centenas de laboratórios em mais de 130 países. O Brasil desempenha um papel ativo nesse sistema, contribuindo com um grupo nacional de vigilância composto por 27 Laboratórios Estaduais Centrais de Saúde Pública (Lacens). Além disso, o país conta com três laboratórios de referência para influenza credenciados junto à OMS: a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro (RJ); o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo (SP); e o Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua (PA).

Isabela Brcko detalha que o monitoramento do vírus influenza começa nas próprias unidades de saúde. Conhecidas como “sentinelas”, essas unidades são responsáveis por coletar amostras de pacientes que apresentam Síndrome Gripal (SG), uma infecção respiratória com potencial de disseminação, e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), uma infecção severa que causa dificuldade respiratória. Essas coletas são realizadas de forma contínua e padronizada, seguindo as normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde. Parte dessas amostras é então encaminhada aos Lacens, onde se inicia o trabalho de identificação e análise do vírus.

Acompanhar a ciência por trás da vacina da gripe é essencial para entender a importância da imunização anual. Para mais informações sobre saúde, ciência e os avanços que impactam o dia a dia, continue acompanhando o Fato Paulista, seu portal de notícias comprometido com informação relevante e de qualidade.

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