O governo do Equador, sob a gestão de Daniel Noboa, aprofundou drasticamente a militarização da segurança pública no país. Em uma manobra que tem gerado intensos debates e preocupações internacionais, o Executivo não apenas ampliou a presença das Forças Armadas nas ruas, mas também formalizou a concessão de imunidade penal para civis, militares e até mesmo agentes estrangeiros envolvidos em ações de repressão estatal. A medida ocorre em um cenário de estado de exceção vigente na maior parte do território equatoriano.
Acordos de cooperação e presença estrangeira
Na segunda-feira, 22 de junho de 2026, o governo equatoriano oficializou um acordo de cooperação com os Estados Unidos. O pacto foca em operações na fronteira norte do país, estabelecendo diretrizes para o compartilhamento de informações estratégicas e a coordenação direta entre as forças de segurança de ambos os países. Um projeto-piloto será implementado inicialmente na divisa com a Colômbia, com possibilidade de expansão para outras regiões estratégicas.
Essa aproximação com Washington soma-se a outros tratados de defesa firmados anteriormente, como os acordos de segurança e inteligência estabelecidos com Israel em outubro de 2025. Para críticos e especialistas, a estratégia de Noboa reflete um alinhamento geopolítico que prioriza a presença de forças externas sob o pretexto de combater a criminalidade organizada, que transformou o país em um corredor central para o tráfico de cocaína rumo à América do Norte e Europa.
O impacto do estado de exceção e a suspensão de direitos
O decreto de estado de exceção, que já acumula mais de 900 dias de vigência intermitente, suspendeu garantias constitucionais fundamentais, como a inviolabilidade do domicílio e o sigilo de correspondências. A socióloga Irene León, diretora da Fundação de Estudos, Ação e Participação Social do Equador (Fedaeps), aponta que a militarização tem sido utilizada como ferramenta de controle político. Segundo a especialista, o aparato estatal está sendo instrumentalizado para perseguir opositores, organizações indígenas e comunidades afrodescendentes, em vez de focar exclusivamente no desmantelamento das facções criminosas.
O cenário político é agravado pela suspensão do registro eleitoral do partido Revolução Cidadã, legenda do ex-presidente Rafael Correa, o que inviabiliza sua participação no pleito municipal de novembro de 2026. A oposição e diversos movimentos sociais já articulam processos para tentar a revogação do mandato de Noboa, denunciando o que classificam como uma escalada autoritária no país.
Alertas de direitos humanos e o modelo Bukele
A política de segurança adotada por Noboa guarda semelhanças com o modelo implementado por Nayib Bukele em El Salvador, frequentemente citado como referência por lideranças de direita na América Latina. No entanto, a estratégia equatoriana enfrenta resistência de organismos internacionais. O Comitê de Pessoas Desaparecidas da ONU manifestou alarme diante de relatos de 51 casos de desaparecimento forçado, incluindo crianças, supostamente cometidos por forças de segurança entre 2024 e 2025.
O governo, por sua vez, defende que a legislação ordinária é insuficiente para conter a capacidade de reorganização das estruturas criminosas. Em decreto publicado em 18 de junho, Noboa reiterou a existência de um “conflito armado interno”, conferindo proteção jurídica ampliada a quem atua na linha de frente da repressão. A situação permanece tensa, com o país dividido entre a busca por ordem pública e o temor de uma erosão definitiva das liberdades democráticas.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos da crise política e social no Equador. Para manter-se informado sobre os principais acontecimentos da América Latina e do mundo, continue acompanhando nossa cobertura, pautada pela apuração rigorosa e pelo compromisso com a transparência informativa.




