Novos reservatórios do fungo Sporothrix
A esporotricose, uma micose frequentemente associada ao contato com gatos domésticos infectados, pode ter um ciclo de transmissão muito mais amplo do que se imaginava. Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Mycopathologia, identificou a presença de DNA de fungos do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres. O achado, que contou com o apoio da Fapesp, acende um alerta sobre a circulação desses patógenos na natureza e seus potenciais riscos para a saúde pública.
O estudo concentrou-se na detecção de três espécies principais: Sporothrix brasiliensis, S. globosa e S. schenckii. Enquanto a primeira é endêmica do Brasil e responsável pela maioria dos casos de esporotricose no país, a S. schenckii mostrou-se a mais frequente entre os animais analisados, abrangendo mamíferos, aves e até répteis. A descoberta sugere que a fauna silvestre pode atuar como um reservatório natural para esses fungos, complicando as estratégias de controle da doença.
Metodologia e vigilância em saúde
A investigação foi conduzida por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), em colaboração com a Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e o Centro Médico Universitário de Utrecht. A coleta de amostras ocorreu entre 2017 e 2023, utilizando carcaças de animais mortos por atropelamento em rodovias do Paraná, como a BR-376 e a PR-445.
Ao todo, foram analisados tecidos de 81 animais, incluindo coração, fígado, pulmão e bexiga. A detecção do material genético foi possível graças a um ensaio molecular de alta precisão, desenvolvido pelo grupo de pesquisa coordenado pelo professor Anderson Messias Rodrigues. A técnica permitiu identificar o fungo mesmo em órgãos internos, indicando que ele circula pelo organismo dos animais, embora ainda não se possa confirmar se todos os espécimes apresentavam a forma patogênica da doença.
Impacto ambiental e o conceito de Saúde Única
Um dos pontos centrais do estudo é a correlação entre a pressão humana sobre o meio ambiente e a disseminação de patógenos. Regiões de transição, onde áreas nativas encontram zonas rurais e urbanas, apresentaram maior incidência do fungo. Segundo Rodrigues, a diluição das fronteiras entre esses ecossistemas facilita o contato entre animais silvestres e domésticos, favorecendo a emergência de novos hospedeiros para o Sporothrix.
A utilização de animais vítimas de atropelamento como sentinelas de zoonoses é apontada como uma estratégia inovadora e de baixo custo para a vigilância epidemiológica. Essa abordagem está alinhada ao conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Com milhões de animais silvestres morrendo nas estradas brasileiras anualmente, o monitoramento dessas carcaças oferece uma janela de oportunidade para entender a dinâmica de doenças emergentes antes que elas atinjam proporções críticas em centros urbanos.
Desafios biológicos e futuras pesquisas
O estudo também derrubou um paradigma científico ao demonstrar que aves podem carregar o fungo. Acreditava-se que a temperatura corporal elevada desses animais, que pode atingir 42 °C, funcionaria como uma barreira natural contra patógenos fúngicos. Contudo, os resultados mostraram que as espécies de Sporothrix são capazes de sobreviver a essas condições térmicas, desafiando o entendimento anterior sobre a resistência desses microrganismos.
Para a doutoranda Steffanie Skau Amadei, primeira autora do trabalho, os resultados abrem caminho para investigações mais profundas, incluindo a realização de histopatologias para confirmar a infecção ativa. O compromisso do Fato Paulista é manter você informado sobre os avanços da ciência e as questões que impactam diretamente a saúde coletiva. Continue acompanhando nosso portal para mais reportagens aprofundadas sobre temas relevantes da atualidade.



