São homens e mulheres que tinham no coletivo seus propósitos, em detrimento do sucesso pessoal. Itaquerenses que colocaram, à frente de qualquer interesse próprio, o dom de amar e ajudar ao próximo.
Uma destas pessoas foi:
OCTÁVIO CALISTRATO
Um dos maiores ativistas sociais de Itaquera e região

Sr. Octávio Calistrato foi um homem bastante culto para sua geração, principalmente se considerada sua origem pobre e descendente de família negra. Com esforço pessoal, força de vontade e muita dedicação, não aceitou as condições que estatisticamente a sociedade lhe reservava e, assim, tornou-se um dos homens de maior relevância na história da política e do desenvolvimento de Itaquera.

Nasceu em Mogi das Cruzes em 26 de setembro de 1919, vindo para Itaquera em data não registrada, onde desenvolveu seu trabalho até sua morte em 1980. Seu corpo está enterrado no antigo cemitério de Itaquera na Vila Carmosina.

Em 1940, passou a viver maritalmente com Maria Florêncio, mais tarde popularmente conhecida como Dona Cota, que foi Rainha, Destaque e Porta-Bandeira da Escola de Samba Falcão do Morro. Viverem juntos até a morte de Seu Octavio.

O casal teve cinco filhos. A primogênita, Cleusa Florêncio, faleceu em 1944 com apenas três anos de idade e logo a seguir morre seu segundo filho de nome Vitor. Superado este trauma, vieram mais dois filhos, que conheci pessoalmente em minha infância: Oduvaldo Calistrato, conhecido como Deca, e Odair Calistrato, conhecido como Lilão.


Octávio foi um profissional exemplar da indústria têxtil. Já preocupado com sua missão de trabalhar por uma sociedade mais justa, derivou sua formação para áreas mais humanas e tornou-se jornalista, contabilista e escrivão. Estas duas últimas funções exerceram para ajudar comunidades na obtenção e registro de documentos importantes, como escrituras, documentação e gestão dos grupos sociais que se formavam.

Como jornalista, atuou no periódico A Estampa, do popular Jornal da Penha, onde desempenhou papel fundamental como repórter, denunciando e buscando soluções para problemas sociais da região.
Recordo-me de Seu Octávio e Dona Cota administrando a área de lazer comunitário da Represa de Itaquera, no final da rua Tomazzo Ferrara. Sim, Itaquera tinha uma área de lazer com uma linda represa formada pelas águas do Córrego do Rio Verde e do Córrego do Areião. Ali havia pedalinhos, trampolins para mergulho, churrasqueiras à sombra de enormes árvores e espaço para pesca esportiva. Desfrutei desse “pedacinho do paraíso” por pouco tempo, pois com a terraplanagem da área que mais tarde seria a Cidade A.E. Carvalho, toda a terra carregada pelo Córrego Areião acabou por assorear a represa, que aos poucos desapareceu. Hoje, no local, está a Comunidade da Paz.
No final da década de 1950, Octávio Calistrato, através de suas articulações e com apoio total da comunidade da Vila Corberi, foi o principal responsável pela maior conquista da história da região: conseguiu, junto à Companhia de Força e Luz, trazer eletricidade para o Morro, até então conhecido como Morro do Querosene, por ter sido o último reduto de Itaquera a receber luz elétrica.
Em 1954, juntou-se aos jovens da Vila Corberi e fundaram o Falcão do Morro Futebol Clube, onde foi o primeiro tesoureiro responsável pelo registro oficial do clube como associação esportiva.

Em 1956, juntamente com Mestre Zulú e outros jovens do Falcão do Morro, criou a Escola de Samba Falcão do Morro de Itaquera, que brilhou com seus desfiles pelo bairro e até mesmo na liga oficial das escolas de samba.

Em 1958, junto com outro ativista social, Sr. Nicolino Mastrocolla, e com apoio de jovens da Vila — como Juca da Dona Olímpia e Cirino de Paula, entre outros — fundou a Sociedade Amigos da Vila Corberi.


Octávio deu continuidade à sua atuação social, sendo vice-presidente da Associação das Sociedades de Amigos de Bairros da Zona Leste, secretário-geral do Comitê do Presidente Jânio Quadros em Itaquera, além de sócio do grupo de estudos de astronomia, área pela qual mantinha enorme interesse. Portava, inclusive, uma carteirinha especial que lhe dava acesso a qualquer momento à Câmara Municipal de São Paulo.
- Fotos da inauguração da Sociedade Amigos da Vila Corberi.


Na Sociedade Amigos da Vila Corberi, participei de um dos projetos criados pelo Sr. Octavio Calistrato, que mais admirei: a criação do grupo denominado Guarda Mirim de Itaquera. Esse grupo dava às crianças da região a oportunidade de pertencer a uma organização onde aprendiam disciplina, cidadania e patriotismo. Os guardinhas mirins recebiam aulas de comportamento social, ajuda ao próximo, ganhavam um fardamento de gala que ostentavam com orgulho e autoestima elevada.
Marchavam pelas ruas de Itaquera atentos às oportunidades de realizar boas ações, por mais simples que fossem. Lembro da vez em que recebi uma medalha por ajudar uma senhora idosa a carregar sua sacola da feira de Itaquera, na rua Gregório Ramalho, até sua casa no Planalto. Vi também meu amigo Deca ganhar medalha por socorrer um alcoólatra caído na sarjeta, debaixo de chuva, carregando-o nos ombros até sua casa no bairro.
Na Guarda Mirim, orgulhava-me de ser o principal corneteiro, junto com Serginho Pinheiro, e marchávamos à frente da fanfarra nos desfiles pelas ruas de Itaquera.
- Participação em reunião comemorativa dos 30 anos da Sociedade Amigos de Guaianases.

Foto de uma das últimas homenagens em vida prestadas a este grande homem e cidadão.

Cópia de seu diário descrevendo o dia em que soube de sua doença diagnosticada pelo Dr Silvio. Olhem a qualidade da caligrafia de que foi também escrevente.

Agradecemos à Sandra Calistrato Nakagama neta de seu Octávio quem nos forneceu as fotos e documentos aqui publicados.
Agradecemos também a Benedito da Glória, seu sobrinho, que ajudou com informações importantes.









