Entre a densidade urbana do bairro Tatuapé, na zona leste de São Paulo, uma iniciativa transformadora floresceu na Escola Estadual Professor João Dias da Silveira. Em apenas dois anos, uma área antes dominada por um simples gramado e uma única árvore se converteu em uma vibrante minifloresta de 415 metros quadrados, abrigando cerca de 630 espécies nativas da Mata Atlântica. Este projeto notável não apenas revitalizou o espaço físico da escola, mas também se tornou um laboratório vivo para a educação ambiental e um refúgio para a biodiversidade local.
A transformação trouxe trilhas, sombra abundante e o retorno de pássaros e insetos, elementos que antes pareciam distantes da realidade de uma escola em meio a prédios. Espécies como pitanga, uvaia, goiaba, grumixama, ipê-amarelo, pau-brasil, jatobá e jerivá agora compõem a paisagem, oferecendo um vislumbre de como a natureza pode coexistir e prosperar mesmo nos centros urbanos mais movimentados.
Oásis Verde no Tatuapé: A Transformação da Escola Estadual
A vice-diretora da escola, Andreia Rodrigues Caldeira Correa, testemunhou de perto a evolução do espaço. Ela relata que a área, antes subutilizada e de difícil manutenção, tornou-se um ponto verde vital no Tatuapé. A mudança é perceptível não só na paisagem, mas também no microclima local, com temperaturas significativamente mais agradáveis, especialmente nos períodos de calor intenso.
Essa revitalização não é apenas estética. O ambiente enriquecido pela Mata Atlântica é agora parte integrante do cotidiano escolar. Durante os intervalos, os estudantes encontram um local de lazer e tranquilidade. Mais importante, o espaço é ativamente incorporado às atividades pedagógicas, como exemplificado pelas turmas da 1ª série do Ensino Médio que, no primeiro bimestre deste ano, estudaram biomas percorrendo as trilhas da própria floresta.
Parceria e Método: Como a Mata Atlântica Renasceu na Cidade
O sucesso do projeto é fruto de uma parceria estratégica com a organização sem fins lucrativos formigas-de-embaúba. Esta entidade dedica-se à educação ambiental e climática por meio do plantio participativo de miniflorestas urbanas. Na Escola Estadual Professor João Dias da Silveira, o projeto foi iniciado no segundo semestre de 2024, mobilizando estudantes, professores e toda a comunidade escolar em um esforço conjunto.
A metodologia empregada para criar a minifloresta é o método Miyawaki de restauração ecológica, adaptado especificamente para as condições da Mata Atlântica. Este processo envolve etapas cruciais como a descompactação do solo, a adubação orgânica e o plantio adensado das espécies. Essa abordagem intensiva e cuidadosa permite um crescimento acelerado e a rápida formação de um ecossistema robusto.
Benefícios Tangíveis: Impacto no Clima e na Biodiversidade Local
Os resultados da implantação da minifloresta vão além da estética e do uso pedagógico. A presença de aves e insetos, como o jacu, pássaros diversos e borboletas, tornou-se uma constante na rotina da escola, indicando a recuperação da biodiversidade local. Além das árvores nativas, a escola também cultiva manjericão, banana e abóbora, que, em pequena quantidade, são ocasionalmente incorporados à merenda escolar, promovendo uma conexão ainda mais direta com a natureza e a alimentação saudável.
A vice-diretora Andreia destaca que o respeito dos estudantes pelo novo ambiente é notável. Eles não apenas utilizam o espaço, mas também se tornaram guardiões da floresta, demonstrando um senso de pertencimento e responsabilidade ambiental. Este engajamento é um dos principais resultados observados pela formigas-de-embaúba, que realiza escutas diretas e medições de impacto na comunidade escolar, notando um aumento da sensibilização ecológica e do vínculo com o espaço.
Engajamento Estudantil: O Orgulho de Ver a Floresta Crescer
A participação ativa dos estudantes no plantio e acompanhamento do crescimento da floresta é um dos pilares do projeto. Pedro Almeida Marques, de 17 anos, aluno da 3ª série do Ensino Médio, é um exemplo desse envolvimento. Ele relata o orgulho de ter participado desde o início, observando a rápida transformação do espaço.
“A experiência de acompanhar esse processo começou a se transformar quando a gente começou a fazer os plantios. Me sinto orgulhoso de ter participado e acompanhado tudo desde o começo porque você não tem expectativa de que a floresta vai crescer tão rápido. Quando a gente saiu para as férias, no fim do ano, nada tinha crescido, e quando voltamos em 2025 as árvores já estavam crescidas”, conta Pedro. Para ele, a experiência de plantar e ver a mudança é gratificante, gerando uma nova percepção sobre a preservação ambiental.
Expansão e Futuro: O Modelo da Minifloresta para Outras Escolas
O sucesso na Escola Estadual Professor João Dias da Silveira serve de inspiração para a expansão do projeto. Rafael Ribeiro, cofundador e diretor de parcerias e plantios da formigas-de-embaúba, informa que a organização está mapeando outras escolas estaduais na capital e Grande São Paulo com potencial para receber novas miniflorestas. Desde 2023, a organização já implementou projetos em nove escolas estaduais, resultando no plantio de aproximadamente 7.200 árvores e beneficiando mais de 3 mil estudantes.
A manutenção das miniflorestas é um aspecto crucial do projeto. Nos primeiros três anos após o plantio, a equipe da formigas-de-embaúba realiza visitas periódicas para garantir o desenvolvimento saudável das árvores. O manejo é feito com capina manual seletiva, focada na remoção de gramíneas invasoras, e manutenção da cobertura do solo. O plantio adensado, característico do método Miyawaki, contribui para que, em cerca de dois a três anos, o sombreamento natural das árvores reduza o crescimento do mato, minimizando a necessidade de intervenções.
A parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) permite que o projeto seja implantado sem onerar os cofres públicos. Além da escola no Tatuapé, outras unidades como EE Maria Prestes Maia, Professor Amador Arruda Mendes e Yervant Kissajikian já contam com suas próprias miniflorestas. A implantação na escola do Tatuapé, especificamente, teve o apoio da ONG suíça SUGi. A expectativa é que essas florestas continuem a crescer, formando gerações de estudantes mais conscientes e conectadas com a natureza, como bem expressa Pedro: “Vou sentir falta da floresta quando me formar no Ensino Médio. Eu sempre vou até quando estou em dias ‘mais ou menos’ e é muito legal entrar ali dentro”. Para mais informações sobre iniciativas ambientais em São Paulo, acesse a Agência SP.
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