O perigoso avanço dos cigarros eletrônicos entre jovens – riscos à saúde e o caminho do tratamento

PUBLICIDADE
O consumo de cigarros eletrônicos entre jovens dispara no Brasil, revelando sérios impactos à saúde mental e física. Entenda os riscos e tratamentos.
Foto: Myléne por Pixabay
PUBLICIDADE

Uma pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acende um alerta sobre o consumo de cigarros eletrônicos no Brasil. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE 2024) revelou que quase 30% dos estudantes com idade entre 13 e 17 anos já experimentaram os dispositivos, conhecidos como vapes, pods ou e-cigarettes. Este dado representa um salto significativo em comparação com 2019, quando o percentual era de 16,8%, evidenciando uma rápida e preocupante expansão do uso entre a juventude.

Apesar da comercialização, importação, fabricação e propaganda desses produtos serem proibidas no país desde 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a realidade nas escolas e entre os adolescentes mostra um cenário desafiador. Especialistas alertam para a “grande ilusão” por trás desses dispositivos, que são frequentemente apresentados como uma alternativa menos nociva ao cigarro convencional, mas carregam riscos substanciais à saúde.

A ascensão dos cigarros eletrônicos e a proibição no Brasil

O aumento de mais de 10 pontos percentuais no consumo de cigarros eletrônicos em apenas cinco anos, conforme os dados da PeNSE, reflete uma tendência global e um desafio para a saúde pública brasileira. A diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Jaqueline Scholz, enfatiza que esses dispositivos não são uma novidade, mas sim uma “grande ilusão” que a indústria soube personalizar como algo sem risco, ideal para uso recreativo, distanciando-o da percepção de perigo associada ao cigarro tradicional.

A proibição da Anvisa, em vigor há mais de uma década, busca proteger a população dos riscos inerentes a esses produtos. No entanto, a facilidade de acesso no mercado ilegal e a desinformação sobre seus efeitos têm contribuído para a proliferação, especialmente entre os mais jovens, que são o alvo principal das estratégias de marketing.

A estratégia de marketing enganosa e o alto poder de vício

A “fantasia de segurança” disseminada pela indústria é um dos pilares da popularização dos e-cigarettes. Contrariando a percepção de inofensividade, esses dispositivos frequentemente contêm uma quantidade de nicotina superior à dos cigarros convencionais. Além disso, podem incluir mais de 2.000 outras substâncias, como metais pesados (cobre e níquel), que conferem um “alto poder de adicção”, tornando-os mais viciantes que o tabaco tradicional.

O design atraente, com cores vibrantes, tons pastéis e até telas interativas com touch e jogos, é uma tática deliberada para seduzir o público jovem, mascarando a natureza prejudicial do produto. Jaqueline Scholz aponta que, embora a indústria afirme que os vapes foram criados para substituir o cigarro convencional, “ele foi desenhado para o jovem”. Essa abordagem sutil permitiu que os dispositivos se infiltrassem na mente das pessoas como uma opção aceitável.

A repercussão internacional também é notável. Países como a Inglaterra, que inicialmente incentivaram o consumo de vapes como alternativa ao cigarro, hoje enfrentam uma “epidemia de consumo”. O Reino Unido, por exemplo, aprovou em 2026 uma lei histórica que proibirá a venda de cigarros para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009, mesmo após a maioridade, e restringirá o uso de vaporizadores em áreas próximas a escolas e hospitais. A ausência de cheiro forte, a falta de combustão e os sabores adocicados contribuem para a falsa percepção de inofensividade, facilitando a contaminação social entre os adolescentes.

Os impactos da nicotina no corpo e na mente dos jovens

A nicotina, substância psicoativa encontrada na folha do tabaco, é extremamente prejudicial. Jaqueline Scholz detalha que ela provoca efeitos cardiovasculares como aumento do risco de infarto, AVC, elevação da pressão arterial e da frequência cardíaca. Além disso, há impactos na saúde bucal, risco de desenvolvimento de diabetes, câncer de pâncreas e danos pulmonares. Nos vaporizadores, a nicotina é apresentada em forma de sal sintético, que é aquecido e inalado.

O pesquisador Henrique Bombana, pós-doutorando do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, explica o mecanismo de ação da nicotina. Ao entrar na corrente sanguínea, ela se liga aos receptores de acetilcolina no sistema nervoso central, imitando-a e desencadeando uma cascata de reações que culmina na liberação de dopamina. Este neurotransmissor é responsável pela sensação de prazer e bem-estar, tornando a nicotina altamente viciante. Como o efeito é de curta duração, a necessidade de uso recorrente para manter a sensação de prazer gera a dependência.

Além dos danos físicos, o uso de nicotina pode aumentar o risco de depressão e ansiedade. A Dra. Jaqueline Scholz ressalta que o cérebro dos jovens está em formação, com o córtex pré-frontal (responsável por decisões conscientes) amadurecendo por volta dos 24 anos. A exposição precoce a substâncias psicoativas cria uma “plasticidade cerebral” que associa angústias e preocupações ao uso da substância, gerando um elo de dependência e prejudicando a saúde mental. A frequência de distúrbios de ansiedade e depressão é significativamente maior em usuários de nicotina.

Diálogo familiar e o caminho para o tratamento da dependência

Os pais podem identificar o consumo de cigarros eletrônicos em adolescentes por meio de mudanças comportamentais. O isolamento, a perda de interesse em atividades antes prazerosas, como esportes, e a alteração de hábitos são sinais de alerta. “Droga psicoativa é isso”, afirma Jaqueline, indicando que a substância pode desviar o foco do indivíduo de outras dimensões da vida.

A professora defende que o diálogo aberto e seguro entre pais e filhos é fundamental. Muitos adolescentes não se sentem à vontade para confessar o uso e pedir ajuda. Um bate-papo preventivo, alertando sobre os riscos do vício, mesmo que o uso seja esporádico, pode ser crucial. “Se o uso é esporádico, eventual, acho que um bate-papo sempre é bom, dizendo assim: ‘Ó, isso aí é uma roubada, cara. Você vai ficar viciado nessa, hoje para você não significa nada, mas logo, logo ali na frente, isso vai te incomodar’”, aconselha Jaqueline.

Para o tratamento da dependência de cigarro eletrônico, a estratégia é similar à utilizada para o tabagismo convencional, baseada em um tripé: saúde mental, medicamentos e o conceito de “Fumar Restrito”. A abordagem da saúde mental visa oferecer acolhimento emocional, pois muitas pessoas usam a nicotina como calmante ou ansiolítico. O tratamento busca reduzir a impulsividade no consumo, enquanto medicamentos específicos ajudam a mitigar os sintomas de abstinência, facilitando o processo de desintoxicação e recuperação.

A luta contra o avanço dos cigarros eletrônicos entre os jovens exige um esforço contínuo de conscientização e políticas públicas eficazes. Para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que impactam a sociedade, continue acompanhando o Fato Paulista, seu portal de notícias comprometido com informação de qualidade, contextualizada e aprofundada.

PUBLICIDADE

Deixe um Comentário