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Quinta, 04 Dezembro 2014 14:04

Civilização para quem?

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Em pleno Século XXI, o século da alta tecnologia e da medicina de ponta, a pneumonia e a diarréia são as principais causas de morte entre crianças com menos de cinco anos de idade. Em 2011, dois milhões de crianças morreram no mundo em consequência dessas doenças, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), que também mostrou que os casos mais graves ocorrem em países da Ásia e da África, que concentram 75% deles. Além disso, o número de mortes causadas pelo Ebola ultrapassou 5.000, em mais de 14.000 casos registrados, a grande maioria deles no oeste da África, segundo o último balanço da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado neste mês de novembro de 2014.

Falando em mortes desnecessárias, em pleno Século XXI, o século da primazia dos possantes automóveis, os acidentes de trânsito custam mais de 3.500 vidas por ano (2011), segundo pesquisa da OMS divulgada agora em 2014.

Em pleno Século XXI, o século da consolidação da democracia e dos Direitos Humanos, o número de pessoas forçadas a deixar suas casas devido a guerras ou perseguição superou a marca de 50 milhões pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, informou a agência de refugiados da ONU. Mas os refugiados não estão sendo acolhidos pelos países ricos, não! A tarefa de assistir refugiados está, cada vez mais, sob responsabilidade de países com poucos recursos: países em desenvolvimento abrigam 86% dos refugiados em todo o mundo, e países ricos atendem apenas a 14%.

Em pleno Século XXI, o século do respeito aos direitos civis, mais de 10,2 milhões de pessoas são mantidas em instituições penais em todo mundo, segundo uma publicação do Centro Internacional de Estudos Penitenciários (ICPS, na sigla em inglês), divulgada no final do ano passado. Os EUA, país modelo em democracia lideram o hanking de maior população carcerária, seguidos de perto pela China, país modelo em comunismo, tendo o Brasil, país modelo em copiar tudo que não presta, chegado ao honroso terceiro lugar. A população carcerária no Brasil é de quase 800 mil pessoas, segundo pesquisa do Conselho Nacional de Justiça. Nos últimos 22 anos, enquanto a população brasileira cresceu 1/3, a população carcerária sextuplicou.

Em pleno Século XXI, o século da consolidação da participação das mulheres na sociedade, no mercado, na ciência, com a difusão de seus direitos sempre na pauta, estudo realizado em 56 países pela revista The Lancet, e apresentado no Brasil Post, por Gabriela Loureiro, mostra que uma em cada 14 mulheres no mundo já foram vitimas de abuso sexual. A autora lembra que, se formos considerar violência em geral, estudo da OMS indica que 70% das mulheres do mundo foram vítimas de algum tipo de violência. No Brasil, a mesma autora menciona estudo que revela que a cada 90 minutos uma mulher é assassinada de forma violenta. São quase seis mil mulheres mortas por ano.

Em pleno Século XXI, o século da Responsabilidade Social e do Politicamente Correto, mais de 12 milhões de pessoas no redor do mundo estão submetidas a trabalho forçado, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). No Brasil, a Comissão Pastoral da Terra informa que 25 mil trabalhadores encontram-se em regime de trabalho escravo.

Em pleno Século XXI, o século da sustentabilidade, das tecnologias limpas, das construções sustentáveis e da proteção ambiental, 13 milhões de hectares de florestas são degradados (ocupações, desmatamento, incêndio) todos os anos, como mostrou dados de pesquisa da geógrafa Ruth DeFries da Columbia University. Além disso, 827,6 milhões de pessoas moravam em favelas no mundo em 2010, segundo ONU-HABITAT. No Brasil, o Instituto Data Popular informa que 12 milhões de pessoas vivem atualmente em favelas.

Afinal, quem são essas pessoas que insistem em lançar o Século XXI das altas tecnologias, das maravilhas do consumo e da democracia, nas trevas da miséria, da ignorância e da violência, como se estivéssemos na Idade Média?

São aquele um bilhão de pessoas que vivem com menos de 1,25 dólares por dia, conforme definição do Banco Mundial para pessoas pobres. Mas, se utilizarmos como referência o acesso a bens fundamentais para a existência saudável, como saúde e educação de qualidade, moradia, emprego e renda proveniente do trabalho, transporte, cultura e lazer, concluímos que a população responsável por lançar nas trevas o “luminoso” Século XXI, compõe mais da metade dos seres humanos viventes. São aqueles que estão excluídos dos benefícios da civilização, que insistem em escancarar que nossa evolução humanística não acompanhou a evolução tecnológica, que o mercado é mais poderoso que os Direitos Humanos e que, o pior, eles insistem em viver nas trevas da miséria porque a outra parte da sociedade, aquela que acessou os tais benefícios da civilização, não tem a menor intenção de dividir isso. E deseja concentrar cada vez mais.

Estudos mostram que em 2050 toda a população mundial deverá estar vivendo nas cidades. Como a lógica de discriminação e exploração da maioria das pessoas e do meio ambiente para concentração de riqueza e renda para poucos tende a se intensificar em nossa civilização tão evoluída, ainda bem que eu não estarei viva para ver o caos que será isso!

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora em Meio Ambiente e Membro da Equipe Pedagógica do Instituto Argumentos – Ciência e Cultura.

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