Domingo, Setembro 24, 2017
redacao@fatopaulista.com.br / fatopaulista@hotmail.com Telefone: (11) 2849-1454 ::: Ano IX - Edição n º 254
Terça, 28 Outubro 2014 10:58

Construir Ambientes Saudáveis é realmente possível - edição 219

Escrito por 
Avalie este item
(1 Votar)

Existe um aspecto que caracteriza particularmente as discussões sobre meio ambiente: todo mundo é “a favor”, todo mundo diz se preocupar, todas as empresas dizem que têm responsabilidade, mas, na verdade, poucos realmente FAZEM alguma coisa relevante na área. Cumprir a legislação já estaria bom demais. Meio ambiente é um dos temas nos quais, a meu ver, há grande distância entre o discurso e a prática. Dentre os temas ambientais em moda, está o que chamamos de ambientes saudáveis. Todo mundo defende a construção de ambientes saudáveis. Mas o que é isso?

 

Há uma experiência diferente, que pode mostrar, de forma esclarecedora, o que é, de fato, construir um ambiente saudável. Trata-se do formato pelo qual a EcoUrbis Ambiental S.A., empresa com a qual eu tenho o prazer de trabalhar há muitos anos, optou para construir e gerenciar a sua primeira Central Mecanizada de Triagem. É uma experiência que vale à pena ser divulgada, pois mostra que é possível construir ambientes saudáveis e que tais ambientes, assim construídos, proporcionam, de fato, bem estar, solidariedade e mesmo alegria para as pessoas que nele trabalham. O que significa maior eficiência, é lógico. Portanto, partilharei esta experiência com meus caros leitores.

A primeira pergunta a ser respondida é: o quê é uma central mecanizada de triagem? No caso da EcoUrbis, a escolha da tecnologia baseou-se em dois pilares, um técnico e o outro, humano. O Técnico: foi escolhida a tecnologia que proporciona maior e melhor produtividade e, portanto, que poderá gerar mais renda na venda dos materiais. Notem que os recursos desta venda não vão para a empresa, mas para a cooperativa que se associou a ela, no caso, a Coopercaps. Há todo um plano da prefeitura atrelado à central mecanizada, que vale um artigo à parte. Por hora, vamos contar nossa experiência de construção do ambiente saudável.

O segundo aspecto, o humano é, a meu ver, o mais importante: a máquina faz o trabalho “ruim”. Ou seja, aquilo que nenhum ser humano deveria precisar fazer para sobreviver. A partir desta central, não chamamos mais os cooperados de catadores, mas de agentes ambientais. Eles passam a realizar o controle de qualidade da operação e, não mais, “catação” de produtos. É uma evolução e tanto!

Grosso modo funciona assim: a máquina rasga os sacos com material reciclável que separamos em casa, envia-os para um grande selecionador de recicláveis que os separa por tamanho e, depois, os envia para vários equipamentos que os separam por tipo e, em seguida, os enviam para as esteiras específicas que, por sua vez, vão à cabine de controle de qualidade, devidamente climatizada, onde os agentes ambientais removem aqueles produtos que estão na esteira errada. Os produtos caem em baias que, quando cheias, mediante um comando por computador, vão para uma prensa para serem enfardados também mecanicamente, por tipo. O processo só não é perfeito, porque há muito vidro entre os recicláveis e porque as pessoas colocam tudo aquilo com o que não sabem o que fazer como reciclável. Mas com o tempo tende a melhorar.

Além do maquinário, o projeto arquitetônico da Arquiteta Soraya Rodrigues, amplamente discutido com a direção da empresa, considera os aspectos do conforto para os trabalhadores, e da beleza das instalações, com uma simplicidade sofisticada que causa bem estar àqueles que trabalham ou visitam a central.

Com a mesma premissa, ou seja, a do respeito às pessoas que iriam trabalhar na central foi construída uma parceria entre a EcoUrbis e a Coopercaps, cooperativa muito bem organizada e coordenada com muita competência por Telines Basílio e sua equipe. Foram levantados os equipamentos de segurança individuais necessários, foi produzido um uniforme para os cooperados, com a mesma estética do uniforme dos funcionários da EcoUrbis, e realizadas então diversas conversas com os agentes ambientais da Coopercaps de forma integrada com os funcionários da EcoUrbis, discutindo a importância do atendimento às normas e da colaboração mútua. Todos usam os mesmos ambientes, de escritório ao refeitório, banheiros e vestiários. Todo mundo colabora na limpeza, os agentes ambientais apóiam a empresa no cuidado com a área de máquinas da central, colaboram também com a equipe terceirizada de limpeza das áreas administrativas, o pessoal da empresa interage com a cooperativa

verificando problemas e buscando soluções, fornece EPIs, uniformes e atua ativamente na manutenção dos equipamentos.

Creio que a empresa poderia ter economizado se não tivesse se proposto a realizar os investimentos dessa forma. Mas o presidente da EcoUrbis Ambiental, Dr. Nelson Domingues Pinto Júnior sabe o quanto a valorização da parte humana é fundamental, pois não há tecnologia que resolva, sozinha, os problemas que temos que enfrentar na dura batalha pela melhoria de nosso sistema de gestão de resíduos, numa cidade tão grande quanto São Paulo. Ele sabe a importância da EcoUrbis como referência nesse setor.

Montou então uma equipe com profissionais de ponta para gerenciar a central e optou por proporcionar uma experiência inovadora, de extrema relevância ambiental e que, o melhor de tudo, mostra que é possível integrar empresas e entidades da sociedade, fazendo desta experiência, também, algo de grande impacto social. E isso, não só porque haverá produtividade e, portanto, renda. Mas porque as pessoas, a partir da experiência vivenciada num ambiente saudável de trabalho, com hábitos ali difundidos de ajuda mútua, de colaboração, de respeito ao outro, levam tais hábitos consigo por onde forem. Levam em seus corações a auto-estima e tornam-se melhor preparadas para combater as discriminações e injustiças. Tornam-se mais críticas e exigentes quanto ao respeito aos seus direitos, sem esquecer os deveres a eles atrelados. Tornam-se pessoas e profissionais melhores. Isso é que é a consequência de viver num ambiente saudável. Isso muda o mundo! Parabéns a todos que estão trabalhando para que esta experiência prospere.

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora em Meio Ambiente e Membro da Equipe Pedagógica do Instituto Argumentos – Ciência e Cultura.

Ler 918 vezes
Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

1 Comentário

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.