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Terça, 03 Junho 2014 20:22

De futebóis, eleições e outras marquetagens.. - edição 213

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Sempre digo que o ser humano é extraordinário: somente esse bicho produziu arte, cultura, esporte e... democracia. Muito bom, mesmo! E o Brasil então, em termos de arte, cultura, esporte e... democracia é da primeira linha!

 

No campo das artes e da cultura, os vencedores são: Luan Santana e Ivete Sangalo como melhores cantores de 2013 e uma tal Anitta, como artista revelação. Credo! Mas tudo bem, porque a ministra da cultura foi na televisão com o filhinho de mais de cinquenta anos fantasiado de menino idiota dançar o lepo lepo e tudo isso enquanto o principal museu da história brasileira foi fechado para reformas até 2025, se deus ajudar. Falando em deus, esqueci-me de dizer que o ser humano também inventou deus e nós, no Brasil, somos muito bons em representá-lo: a bancada de parlamentares religiosos é cada vez maior (se fosse um partido, seria hoje o terceiro mais influente no parlamento) e o seu posicionamento relativo ao respeito aos Direitos Humanos e às diversidades é sempre trágico. Além, é claro, de os religiosos conseguirem a proeza de fazer gente pobre, mas muito pobre mesmo, pagar dízimo todo mês e ficar liberado para desejar comprar tudo de novidade que o mercado das pequenas e médias inutilidades lhes enfie goela abaixo porque, afinal, somos todos filhos de deus, e podemos, além do dízimo, pagar prestação também, que se não é discriminação.

Continuando, no esporte somos ótimos, vamos sediar a copa do mundo e, por isso, pudemos gastar bilhões de dinheiro público em enormes estádios superfaturados que não servirão para nada depois dos jogos oficiais (eu já estou com saudades do Pacaembu). Só que os projetos atrelados ao evento, que trariam benefícios à população, como os de mobilidade urbana estão devidamente imóveis dentro das gavetas da burocracia e continuamos sem saneamento básico, sem condições de atendimento à saúde da maioria da população, sem moradia e, delícia das delícias, estamos no meio de um surto de Dengue incontrolável e não teremos água para tomar banho depois de suar a camisa torcendo pela seleção na copa. Seleção que, por sinal, não emociona mais ninguém, tamanha falta de competência e empenho. Além de tudo isso de bom, somos um país democrático. Nossa democracia, como dizem os “analistas políticos” está consolidada porque temos eleições frequentes e sem distúrbios. De fato, nossas eleições são tão frequentes que os governantes não têm tempo de trabalhar, porque estão sempre em campanha.

Ou seja, como se vê na televisão, somos um povo feliz, porque todos os nossos problemas se tornam coisas boas graças ao incrível marketing, que transforma carências em abundâncias, mazelas em maravilhas, políticos incompetentes e corruptos em verdadeiros anjos do bem que zelam pelo povo e jogadores – que mais gastam tempo posando para propagandas de cuecas do que treinando futebol e que ganham salários vergonhosamente altos num país miserável como o

nosso – em heróis. O marketing serve tão bem à política, pois ambos são a “arte de mentir”, como dizia José Saramago. Mas, meus caros leitores, nenhuma farsa dura para sempre!

As pessoas não querem esta copa, que não trará os benefícios propagandeados e estão nas ruas expressando isso. E as pessoas, ao que parece, estão questionando também esta democracia: os setores mais explorados e desrespeitados da nossa sociedade como os professores, os policiais, os trabalhadores menos qualificados, os sem teto e sem terra e toda uma massa de gente que ganha uma miséria estão parando o país. Isso ocorre porque o marketing que tenta colocar a nossa “democracia consolidada” como uma das melhores do mundo não está convencendo mais: pesquisa Data Folha recente mostra que, se pudessem, 57% dos eleitores não votariam na próxima eleição. Mas como nossos parlamentares são muito democráticos, o voto é obrigatório, apesar de 67% da população ser contra essa obrigatoriedade. Por que será que nenhum governante democrático, nos últimos 20 anos, teve coragem de acabar com o voto obrigatório, hein?

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora em Meio Ambiente e Membro da Equipe Pedagógica do Instituto Argumentos – Ciência e Cultura.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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