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Terça, 10 Setembro 2013 00:00

Meio Ambiente: discurso e prática - edição 199

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Caros leitores, a tecnologia disponível hoje em dia é extraordinária: tem todo o tipo de objetos elétricos para fazer todo o tipo de coisas que antes a gente fazia com as mãos e uma faquinha, como descascar batatas e, também, tem todo o tipo de equipamentos eletrônicos para fazer o que antes a gente fazia com a voz e o olhar, como conversar com alguém. Neste mundo da comunicação tecnológica, rodam muitas informações. Com Ipeds, Ipods, laptops, tablets e celulares as pessoas estão sempre “conectadas”, comentando, discutindo online tudo quanto é assunto.

E um dos temas hoje em dia na pauta, em todas as mídias, é a preservação do meio ambiente. Todo mundo “defende” do meio ambiente. Lógico! Em mais de 20 anos trabalhando na área ambiental e social, tenho visto mais do que nunca o tema ambiental se disseminar. Isso é muito bom. Mas de que meio ambiente estamos falando nas telas de alta resolução dos computadores e todas essas traquitanas que precisam de um sem número de componentes retirados da natureza para serem produzidos e que depois de menos de um ano de uso viram lixo tóxico, porque precisamos comprar produtos de última geração?

Defende-se a “natureza”. Qual natureza? O Ser Humano faz parte da natureza como o macaco e o urubu. Mas a natureza do Ser Humano é diferente da do macaco e do urubu por termos criado uma forma complexa de vida em sociedade. A nossa inteligência fez que com que, para suprirmos nossas necessidades de sobrevivência precisássemos (diferentemente de macacos e urubus que precisam basicamente de abrigo e comida), de cultura, educação, conforto, carinho e solidariedade! Criamos famílias, tribos, vilas, cidades. Aprendemos a nos comunicar e a nos solidarizar e por isso sobrevivemos como espécie. Evoluímos dividindo, compartilhando bens e saberes, e disseminando cultura. Ocupamos todas as partes do mundo e nos adaptamos aos mais hostis ambientes. Para isso, precisamos sempre utilizar recursos naturais e lançar mão de inteligência e trabalho para desenvolvermos aquilo de que precisamos para sobreviver como bichos humanos que somos: água limpa, alimentação adequada e, também, moradia digna, assistência à saúde, educação e cultura, esgoto tratado, trabalho bem remunerado, roupa, sapato... Mais da metade dos seres humanos vivem em cidades!

Nos últimos ínfimos 200 anos de cultura humana sobre a terra (depois de milênios de evolução da espécie a duras penas) inventamos a noção de “bens de consumo”. E nossa sociedade de mercado começou a inventar bens demais e a distribuir de menos os bens realmente necessários à nossa sobrevivência. Capítulos da nossa História rolaram e hoje estamos sob a égide de um sistema global único, chamado capitalismo, que se baseia na geração e estímulo ao consumo de bens supérfluos para alguns e na exclusão da maioria das pessoas ao acesso dos bens fundamentais mencionados acima. Como tudo na nossa sociedade de consumo, também a discussão sobre meio ambiente precisa ser superficial. Precisamos ser superficiais para não pensarmos criticamente no que realmente precisamos e, assim, consumirmos alegremente. A própria noção de meio ambiente virou um produto de consumo.

Então, discute-se a questão ambiental, sem discutir o sistema socioeconômico e político em que vivemos. O capitalismo, caros leitores, é insustentável. É preciso rever o modelo de sociedade em que vivemos e valorizar mais a solidariedade do que consumismo individualista. (uns tem oitenta pares de sapatos, enquanto muitos não têm o que comer).

A má distribuição de renda no Brasil é, por exemplo, um crime ambiental extraordinário. Mas ninguém quer discutir isso. Ninguém quer abrir mão das coisas que tem e não importa se a maioria das pessoas não tem o que comer. Isso é inadmissível, porque foram a solidariedade e a compaixão que proporcionaram nossa sobrevivência como espécie sobre a face da terra. O meio ambiente deve ser tratado como Direito Humano Fundamental, como direito ao acesso aos bens de que nossas crianças (inclusive as pobres) necessitam para viver. Há, portanto, uma separação entre o discurso e a prática na defesa do meio ambiente (assim como na política, aliás). Nosso discurso de “proteção” ao meio ambiente, hoje, está dissociado da prática humanista. Ninguém aqui está falando que não devamos cuidar da natureza, pois sem ela não sobreviveremos, mas digo que isso só será possível numa sociedade mais solidária e mais justa. Numa sociedade mais crítica. Me digam: de que adianta termos laptops nas escolas públicas se nenhuma criança nunca leu um poema da Cecília Meireles e, pior, a maioria sai do ensino fundamental sem saber compreender a poesia, se tentar ler e sem saber fazer as operações básicas de matemática. Ou, de que serve uma família pobre pagar prestação de quatro celulares (um por cabeça) se, quando o pequenino adoece, não se pode pagar à prestação o remédio que o posto de saúde não oferece? Hein?!?

Ler 1037 vezes Última modificação em Quinta, 19 Setembro 2013 12:22
Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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