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Terça, 30 Maio 2017 18:27

Economia global, consumo local, mortes em geral

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Agora é comprovado cientificamente o que muitos especialistas em meio ambiente e saúde supunham faz tempo: a globalização da economia resulta em ampliação do consumo de produtos mais baratos em regiões do mundo mais ricas e melhor qualificadas ambientalmente e provoca mortes prematuras em decorrência da produção desses bens nos países menos desenvolvidos, que possuem menores controles ambientais na produção. Esta coluna adverte: a globalização faz muito mal à sua saúde, meu caro amigo do Terceiro Mundo!

Um estudo publicado neste mês pela revista Nature coordenado por uma universidade chinesa, que abrangeu 228 outros países além da China, mostra dados muito importantes: 22% (770.000) das 3,5 milhões de mortes prematuras atribuídas à poluição no mundo estão relacionadas a emissões resultantes da produção de bens e serviços feitos em uma região e consumidos em outra. Só na China foram mais de 100.000 pessoas mortas em razão da produção de bens destinados apenas aos Estados Unidos e à Europa! Este dado choca, não?! O estudo comprova ainda que emissões decorrentes da produção de bens de consumo atingem pessoas em países vizinhos e mesmo mais distantes: 12% das mortes prematuras – no mundo – estão relacionadas a poluentes que se deslocaram para lá e para cá pelo planeta. E vejam que o estudo abrange apenas efeitos da poluição do ar!!! É uma guerra silenciosa e cruel. Muito cruel.

Mas isso é a cara da nossa chamada “civilização”: temos informações científicas sobre os importantes fenômenos que nos afetam, sobre as consequências da nossa forma de vida, sobre como e porque temos morrido ultimamente, sobre coisas que fazem mal e coisas que fazem bem. Sabemos muito sobre saúde, sobre doença, sobre hormônios da alegria, da tristeza, sobre comida e bem estar, sobre tudo... Tudo o que deveríamos e não deveríamos fazer para sermos saudáveis e felizes. E continuamos a fazer tudo errado e somos doentes e infelizes! Por que será?

Porque o imaginário das pessoas e, sobretudo, a inteligência irresponsável dos responsáveis pelo “mundo dos negócios” desconsideram fragorosamente as advertências da ciência. Depois de firmados acordos, sempre muito negociados após embates furiosos de interesses em inúmeros fóruns mundiais e locais; depois de tanto trabalho e debates pela redução das emissões de combustíveis fósseis; depois de disseminado e difundido o fundamento principal do pensamento ambientalista honesto, pensamento este relacionado ao fato de que não há fronteiras quando falamos em meio ambiente – nem para a preservação, nem para a poluição – e, também, apesar de questionados e criticados tantos eventos desastrosos como guerras e êxodos de pessoas, temos visto governantes imbecis, bélicos, racistas e desenvolvimentistas nos moldes mais atrasados alçarem ao poder com discursos insanos como: “o meio ambiente não é problema. O importante é o desenvolvimento do meu país”. Se meus caros leitores acham que estou falando de um governante maluco, com “pinta” de espiga de milho desgovernada que se elegeu como presidente da dita “maior democracia do mundo”, não estou, não. Infelizmente ele é apenas mais um. Eles têm sido muitos. Cá e mundo afora.

A pesquisa em questão mostra a enormidade de pessoas mortas em razão da poluição ambiental proveniente da produção de coisas das quais elas mesmas sequer desfrutam. Qual a grande diferença entre este momento atual e a época da escravidão, em que tantos e tantos morreram para gerar a riqueza de alguns poucos? A diferença é que agora nós morremos, mas achamos que não estamos escravizados. Mas estamos. Não mais por um senhor, com tronco e chibata para castigos físicos, mas pelas coisas que desejamos ter. Estamos escravizados por nossa própria sociedade, que vê no consumismo sua única razão de existir. Todos nós somos responsáveis!

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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