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Terça, 10 Dezembro 2013 14:45

Questões Ambientais de 2013 - edição 205

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Mais um ano chega ao final. Não pretendo aqui fazer nenhum balanço, mas pontuar algumas das principais questões ambientais de 2013, considerando, como meus caros leitores já estão habituados, que as pessoas fazem parte do meio ambiente e que, portanto, elementos que interferem sobre as condições de vida das pessoas são fundamentais para a discussão ambiental.

 

Iniciemos pelo IDH, que é um índice composto por três indicadores de desenvolvimento humano: longevidade, educação e renda. Melhorou em relação aos anos anteriores: A classificação do IDH geral do Brasil mudou de "muito baixo" (0,493), em 1991 para "alto desenvolvimento humano" (0,727), em 2010. Em 2000, o IDH do Brasil era 0,612, considerado "médio". Em 2013 o índice de longevidade, foi o que mais se ampliou, com 0,816 (classificação "desenvolvimento muito alto"), seguido por renda (0,739; "alto") e por educação (0,637; "médio").

Mas, na educação, se olharmos os resultados do PISA, que analisa o nível de conhecimentos de alunos de 15 anos, em 65 países, vemos que o Brasil ocupa o 58º lugar em matemática, o 55º lugar em leitura e o 59º em ciências. Mas o Brasil é a sexta economia do mundo. Isso quer dizer que o trabalho DE TODA A SOCIEDADE produz muitas riquezas para estarmos no sexto lugar no mundo. Por exemplo, a Irlanda está em 48º lugar no PIB. Sabem em que lugar está no PISA? Sétimo lugar na categoria leitura! Em matemática, o nível dos estudantes brasileiros é semelhante aos dos alunos de Albânia, Argentina, Jordânia e Tunísia. Entre os países da América Latina, o Brasil está abaixo de Chile, México, Uruguai e Costa Rica. Mas o nosso PIB é MUITO maior que o desses países.

Já na saúde, a taxa de mortalidade infantil no país caiu de 16,1 mortos por mil nascidos vivos em 2011 para 15,7 mortos por mil nascidos vivos. Então, a sexta economia do mundo permite que morram quase quatro vezes mais crianças do que Cuba, que é uma pequena ilha, muito pobre e sob embargo econômico há décadas, mas onde somente se registram 4,83 mortes por mil nascimentos.

Saneamento básico é outro elemento ambiental importantíssimo para vermos como vai a saúde da sociedade. O Brasil tem 70% da população atendida por água, esgoto e coleta de lixo. Só que lá na Região Norte não chega a 20% e no Nordeste e Centro-Oeste passa pouco dos 50%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD 2013.

Então qual é o problema? A distribuição da riqueza para toda a sociedade. A PNAD também mostra que os mais ricos (1% da população) avançaram mais do que os 10% mais pobres nos quesitos mercado de trabalho e o acesso à educação, a serviços públicos e a bens duráveis. O rendimento do trabalho dos mais ricos aumentou 10,8%, enquanto o dos 10% mais pobres ficou em 6,6%. Considerando além dos salários, coisas como renda de alugueis, aposentadorias, transferências de

renda e aplicações (coisas que pobre não tem), a diferença entre os mais ricos e os mais pobres foi ainda maior, com melhoria de renda de 5,1% para os mais pobres e de 12,8% para os mais ricos.

Então, olhando as notícias sobre IDH, PIB, mesmo sobre o PISA e a mortalidade infantil isoladamente, as autoridades correm a dizer que o país melhorou. Melhorou mesmo, em relação à tragédia que era antes. Mas em relação a países mais pobres que nós, nossos índices que atestariam boa qualidade de vida são vergonhosos. Sobretudo, porque somos um país RICO. Mas a riqueza produzida POR TODOS, não é distribuída com justiça para todos. Este é o balanço: vamos melhorando aos pouquinhos, mas continuamos um país muito, mas muito injusto. Sem distribuição de renda não haverá nunca educação e saúde boas. E sem educação e saúde para as pessoas, não há o que falar de meio ambiente, pois a ganância e a pobreza andam juntas somente num ponto: no desprezo à natureza. Num caso, justo, por necessidade, como ocorre com pessoas que ocupam áreas de preservação para terem onde morar, por exemplo. Noutro caso, muito injusto, por ganância, como é o avanço de agronegócios e exploração de madeira em terras de reserva natural e indígena, por exemplo.

João Cabral de Melo Neto, o grande poeta, disse uma vez: “O Brasil é um país que precisa de pessimismo, de muito pessimismo. O otimismo destrói o Brasil em qualquer atividade”. É preciso encarar de frente que as coisas não estão ótimas. Não vai dar tudo certo no final, sem aplicarmos o máximo esforço na qualidade dos serviços, principalmente na saúde e na educação.

Feliz 2014 a todos! Ah, para todos não, só para quem pode ler este artigo, porque o analfabetismo voltou a crescer no ano passado e são 13,2 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever, ou seja, 8,7% da população com 15 anos ou mais de idade. Sem contar os analfabetos funcionais, que são mais 33 milhões de brasileiros...

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora em Meio Ambiente e Membro da Equipe Pedagógica do Instituto Argumentos – Ciência e Cultura.

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