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Segunda, 30 Janeiro 2017 12:02

Adeus ano velho, a Deus ano novo!

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Quem, como eu, desejou avidamente o final de 2016, sonhando que 2017 traria boas energias e novas esperanças, que seria, enfim, um ano melhor, deu com as éguas n’água, porque a coisa já começou sinistra!

Mundo afora, fora o “fato alternativo”, ou seja, a mentira chamada Donald Trump (essa aberração que confirma o fato real de que não só os regimes de “republiquetas” ou monarquias ditatoriais terceiro mundo afora produzem governantes estúpidos e ignorantes), as ditas “democracias consolidadas” estão produzindo uns tipos de políticos nacionalistas-populistas de estilo mais que conservador, reacionário e mesmo fascista, que ameaçam as já tênues linhas de sustentação de valores humanistas duramente construídos no período pós-Segunda Guerra Mundial e muito delicadamente mantidos – e, ainda assim, relativos a poucas sociedades – como a solidariedade entre os povos, o direito à mobilidade, o respeito às diversidades e às diferenças, a atenção às questões sociais e ambientais... O “lado bom” da globalização, que já era para poucos como livre circulação de pessoas, mercados abertos, interação cultural e étnica... está indo tudo para o brejo.

Mundo adentro, no nosso desafortunado paisinho, só notícias ruins. Dei-me conta que já escrevo neste espaço há 10 anos e não é que as coisas só pioram?! Do ponto de vista econômico e consequentemente, do ponto de vista do emprego e da qualidade de vida, da educação e da cultura, da discriminação e da violência, tudo piora a cada ano, o que significa dizer que não podemos esperar nenhuma melhora no sentido de que a sociedade estabeleça uma relação mais sustentável com o meio ambiente. Por exemplo, passado o período crítico da crise hídrica, o desperdício de água tratada já ultrapassa os 30%. Somos uma sociedade de fraca memória e pouca disposição ao sacrifício. Nossos políticos gostam de mentir – como dizer que não há mais crise hídrica – porque nós adoramos ser enganados. Mas sofremos o tempo todo graças às mazelas de nossa forma de vida desigual, discriminatória, injusta e violenta.

As coisas não estão desconectadas entre si. Creio mesmo que o novo presidente norte americano fez, secretamente, um breve estágio com os políticos brasileiros e aqui logo descobriu a força e a utilidade dos conceitos “fato alternativo” e “pós-verdade” os quais tem utilizado com uma leveza de bailarina russa. (Aliás, eu não vou nem falar da Rússia, ok? É porta-aviões demais para meu “oceaninho atlântico”). O fato real é que as investigações da Lava Jato estão colocando para fora as entranhas de uma forma de ver o mundo de toda a sociedade e, não só, as condutas desvirtuadas de alguns políticos e empresários. As “tenebrosas transações que se revelam a cada dia entre políticos e representantes de grandes empresas só puderam ser assim intensificadas nos últimos anos porque fazem parte da nossa cultura do “é assim mesmo” e, assim, permitiram que os políticos das novas gerações, em ação no período pós-Ditatura Militar, conseguissem maquinar de forma “brilhante” o uso do “fato alternativo”, escamoteando a verdade de um país com economia dependente, com bases sociais e culturais fragilíssimas, com altos índices de desemprego e violência, por meio de falsos discursos das maravilhas e bonanças do consumismo individual. Das maravilhas do prazer rápido e fútil, fugindo deliberadamente do chamamento necessário ao esforço coletivo para a consolidação de uma sociedade mais estável, mais justa. E todo mundo gostou muito de poder fazer crediário e ter cartão de crédito, mesmo sem ter emprego para pagar a prestação! Enquanto isso alguns se banquetearam com o dinheiro público e agora a bomba está explodindo. Alguém aí pode me explicar a razão do fato real de a população carcerária ter aumentado 267,32% nos últimos quatorze anos, enquanto os governantes diziam que o Brasil era o paraíso dos paraísos, o Éden dos édens, ou seja o melhor lugar no mundo para se viver? Melhor lugar para quem? Eike Batista? Sérgio Cabral? Pelo menos eles, e muitos outros, estão entrando nesta estatística!

Em suma, só se pode chegar ao ponto em que chegamos porque toda a sociedade vive uma enorme crise moral e ética! Nenhum totalitarismo cola-se apenas a um aspecto da vida da sociedade, se não seria apenas o “chiste” de governantes personalistas insanos e de uma pequena corja de corruptos aliados e não renderia adesões de grande proporção. Claro, se não, não seria totalitarismo, como ensina a grande Hannah Arendt. Este, por sua vez, é globalizante. Ele se introjeta na forma de “pensar” e de “ser” de toda a sociedade. Justifica discriminações, injustiças e violências. E todo o totalitarismo necessita dos tais fatos alternativos, pois se consolida sobre a mentira!

Já disse o filósofo que a História se repete como farsa. Estou sentindo um cheiro horrível que lembra os tristes anos anteriores a Segunda Grande Guerra. A Deus ano novo!!

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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