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Terça, 29 Novembro 2016 17:54

Foi descoberto o Brasil...

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“E a turma gritava: bem vindo o seu Cabral”. Quem não se lembra desta musiquinha tem menos de quarenta anos de idade e quando entrou na escola primária a ditadura militar tinha acabado e os professores já podiam falar das mazelas brasileiras desde o período colonial. Podiam falar da escravidão como algo vergonhoso, do sistema econômico e social excludente sob o qual o Brasil sempre foi administrado e, também, sobre a corrupção endêmica que é nossa característica política mais genérica desde o longínquo Império até nossa atual República infestada de malufeiros, mensaleiros, petroleiros, trambiqueiros e tais.

Lembrei-me dessa musiquinha porque seria a ideal para ser cantada pelos colegas lá de Bangu quando da chegada de um dos ex-governadores mais corruptos que o Brasil já viu e que afundou a “cidade maravilhosa” num tsunami econômico e social sem precedentes. Parece até roteiro de chanchada: “governador preso no presídio que inaugurou”. Lembra aquela novela em que o prefeito foi quem inaugurou o cemitério que ele mesmo construiu.

Mas não tem piada no que se passa no Brasil atualmente, não. A corrupção generalizada apodrece as relações institucionais, contamina as relações econômicas, infesta o tecido social e, portanto, interfere diretamente sobre a vida de todos nós. A corrupção não é alguma coisa que um propõe, o outro aceita, o dinheiro passa de uma mão para outra e pronto. A corrupção come do nosso prato. Mais que isso, a corrupção degrada moralmente toda a sociedade. E o problema de nossa sociedade é que se generalizou a ideia de que a corrupção sempre esteve e sempre estará; que se dá bem quem sabe fazer sem ser pego. Que não se enriquece trabalhando, que só dando jeitinho, se beneficiando indevidamente é que se pode “progredir” na vida e que isso nada tem a ver com desemprego, pobreza, más condições de educação, saúde, criminalidade e violência.

Mas a corrupção é uma praga e o corrupto é um verme que se alimenta da seiva da árvore que o abriga, fartando-se de suas entranhas, acreditando que elas são só dele, para ele e para “os seus” e nunca faltarão ao seu voraz apetite. Mas a árvore abriga muitos outros seres, que se esforçam, que trabalham por ela, pela sua manutenção, por suas próprias vidas e, de repente, veem os galhos secando, as folhas caindo, a raiz apodrecendo. A corrupção é uma bomba que mais cedo ou mais tarde sempre explode e detona a sociedade toda. Quanto mais uma sociedade é condescendente com a corrupção, maior é o poder de detonação desta maldita bomba. No caso do Brasil, ela está devastando tudo.

É por isso que, por mais que nos embrulhe o estômago e nos estarreça o fato de parecer que ela está “em todo lugar”, não devemos condescender com a corrupção e todos aqueles que a praticam devem ser presos, seja Garotinho, Garotão, Colombo, Cabral, Cunha, Bigorna, Molusco ou Vertebrado. Tem que ir preso mesmo! Pode espernear o quanto for. Este é o diferencial das ações atuais da Procuradoria, da Promotoria e da Polícia Federal. Tem gente poderosa indo presa. Isso muda a autoimagem da sociedade. Sempre pairou pelas nossas tropicais paragens que só quem vai preso é pobre. Portanto, faça “qualquer coisa” para enriquecer, pois rico pode fazer “qualquer coisa” que não vai preso.

A crise que se avoluma em nosso país é consequência deste tipo de ideologia tupiniquim dos infernos que tomou conta deste país por tanto tempo, e mesmo aqueles que trabalham, se esfalfam para sobreviver e que não cometem crimes nem são desonestos a reproduzem, numa cantilena tola que só reafirma nossa impotência diante ricos, poderosos e políticos corruptos que se beneficiaram e se beneficiam do patrimônio de toda a sociedade, como se isso fosse “da natureza” da política. Mas não é não!

Essa devassa deve prosseguir até que seja saneado o sistema e deve também ser debatido pela sociedade o limite dos benefícios oferecidos a servidores públicos dos três poderes, porque não pode a sociedade receber menos de mil reais de salário mínimo e um servidor ou parlamentar receber mais de trinta ou quarenta mil, fora as “regalias”. A conta não fecha! Mas somente uma sociedade honesta e que valoriza a honestidade pode exigir isso. Podemos, graças a este momento de exposição extraordinária de nossas podres entranhas corruptas, passar a desejar ser essa sociedade. Mais justa, mais honesta.

Não estamos falando aqui de socialismos, nem de grandes revoluções, ok? Falamos de democracia mesmo. Sabemos, como disse Benjamin Franklin, que democracia é como dois lobos e um cordeiro na sala discutindo o que terão para o jantar. Mas pensem bem: se a gente infesta a sala de cordeiros é possível que os lobos acabem tendo que se escafeder, ou vão tomar coice à beça e, ainda, ficar sem jantar.

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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