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Quinta, 06 Outubro 2016 10:37

Educação, Eleições e Meio Ambiente

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Dois dias após o primeiro turno das eleições municipais foram divulgados os resultados do ENEM 2015, o famoso Exame Nacional do Ensino Médio, que garante o ingresso de estudantes às principais Universidades Federais brasileiras e também a outras ótimas universidades públicas como a USP, por exemplo. Eles refletem não só a decadência do nosso ensino público e as desigualdades sociais cada vez mais gritantes de nossa sociedade (91% das escolas públicas ficaram abaixo da nota média registrada; apenas três escolas públicas estão entre as cem melhores colocadas, enquanto as escolas privadas classificadas como de “alta elite” estão no topo da lista).

Eles refletem também o desprezo da própria escola pública pelos estudantes de classes sociais mais baixas, pois mais da metade das escolas delas sequer teve as notas do ENEM divulgadas, pois não houve participação suficiente dos alunos. Nem a escola estimula os alunos a participarem. Isso é uma forma horrível de passar a eles a mensagem de que “não são capazes”. No Estado de São Paulo isso aconteceu com 75% das escolas! Como pode uma coisa dessas? O estado mais rico do Brasil! Por que estamos piorando tanto em todos os indicadores fundamentais para o bom desenvolvimento de nossa sociedade, para a boa perspectiva de vida para nossa população, para um futuro digno para nossos jovens?

Porque a sociedade brasileira sempre foi discriminatória e excludente, apesar do discurso falso e oportunista dos políticos que sempre se dizem “muito preocupados com os pobres”. Sempre foram colocadas em prática, dissimuladamente, todas as formas possíveis de afastar as classes populares do acesso a uma real condição de desenvolvimento social, cultural, educacional e, portanto, econômico, garantindo autonomia, independência e sustentabilidade à vida da população mais pobre por meio de boa educação, qualificação profissional, emprego e renda dignos. Sempre são “prioridades” dos excelentíssimos, ou candidatos a excelentíssimos, a educação, a saúde e o emprego. E vejam onde nos encontramos: mais de 12 milhões de desempregados (esses são os desempregados “declarados”, ou seja, aqueles que ainda procuram emprego. Tem muito mais, porque muita gente está se virando e saiu das “estatísticas”); a educação dos jovens desse jeito e, quanto à saúde, vou poupar os leitores de um ataque fulminante ao dar os dados, porque vai ser difícil acharem um hospital público que os atenda com qualidade!

            Venho escrevendo há anos neste espaço que não ia adiantar oferecer migalhas em forma de “bolsas” de todo o tipo se não fossem estabelecidos alicerces firmes para uma sociedade economicamente estável, produtiva e socialmente mais solidária e justa. Mas não só isso não ocorreu, como a condução política do país nos últimos anos levou a uma crise jamais vista, intensificando as desigualdades e, consequentemente, a perda de oportunidades dos nossos jovens mais pobres de passar a fazer parte, a estarem realmente integrados à sociedade de forma produtiva, graças às suas próprias competências, que deveriam ser estimuladas por uma escola interessada e comprometida com o aprimoramento técnico, mas também com o desenvolvimento social saudável dos alunos. Mas este mundo, se existe, é longe daqui. Daí, aqui aumenta a criminalidade, todos se dizem estarrecidos e os governantes que são responsáveis pelos resultados pífios das escolas públicas no ENEM propõem a construção de presídios (sem licenciamento ambiental) e a redução da maioridade penal. Credo, que sociedade é essa?

Mas algo diferente parece vir ocorrendo, como mostram os resultados das eleições das quais acabamos de participar: se fossem candidatos, os votos “brancos”, “nulos” e “abstinências” seriam os principais eleitos em quase todos os municípios. Por quê? Porque a população brasileira, que vem sendo ludibriada historicamente pela classe política, cansou da brincadeira. A sociedade brasileira não se sente mais representada nem pelos partidos políticos, nem pelos candidatos. Vem se configurando, desde 2013, uma alteração na passividade da sociedade, pelo menos do ponto de vista eleitoral. É muito difícil num país onde o clientelismo é tão arraigado como o Brasil ocorrer de uma hora para outra uma mudança radical nos comportamentos, nas condutas. Mas uma expulsão dos representantes da “velha política” do cenário começa a se desenhar, ainda que tenuemente e isso é uma esperança. Bem feito para os velhacos da política que ficaram de fora.

Ah, faltou a parte “meio ambiente” que indico no título. Gostaria apenas de lembrar que uma sociedade mal educada, segmentada, injusta e discriminatória, que mantem a grande maioria das pessoas na carência, jogando milhares na marginalidade e, mesmo, na criminalidade e, ainda, é refém de políticos mal preparados e mal intencionados NUNCA vai conseguir consolidar o debate ambiental necessário para que ocorram as também necessárias mudanças políticas e o estabelecimento de políticas públicas e alterações de comportamento visando um país ambientalmente mais sustentável.

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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