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Quarta, 10 Agosto 2016 11:30

Educação Ambiental: a cura de todos os males?

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Meio ambiente é um assunto recorrente hoje em tudo que é lugar: está no discurso de políticos, empresários, gestores, professores, donas de casa, intelectuais, cientistas, artistas. Cozinheiros, articulistas, chefes de Estado, muambeiros. Todo mundo “se preocupa” muito com o meio ambiente, não é mesmo? Você, meu caro leitor, não se preocupa? Se não. Deveria! E todo mundo que “se preocupa” com o meio ambiente diz que o problema é que “as pessoas” não respeitam o meio ambiente e que precisa de educação ambiental para que “as pessoas” passem a respeitar o meio ambiente. Mas quem são “as pessoas” que não respeitam o meio ambiente? Eu sei. São: os políticos, empresários, gestores, professores, donas de casa, intelectuais, cientistas, artistas, cozinheiros, articulistas, chefes de Estado, muambeiros e, também, os educadores ambientais. Todo mundo que diz que se preocupa com o meio ambiente!

A sobrevivência humana sempre esteve atrelada à exploração dos recursos naturais. Por óbvio: água, comida, abrigo. Ninguém vive sem isso. Muitos milhares de anos após termos dominado a técnica dificílima e super perigosa de caçar mamutes para comer, aprendemos a viver em cavernas de vinte andares com 10 subcavernas por andar e a comprar pedaços prontos de mamutes domesticados, devidamente acomodados em bandejinhas de isopor para serem consumidos por nós, além de termos domesticado também a água, que aprendeu a subir pela tubulação das cavernas de vinte andares e já chegar quentinha para o banho. Nos tornamos “civilizados”. Um feito que nenhum outro bicho do reino animal conseguiu. Fora alguns Poodles.

Assim, nossa condição de civilizados viventes em cidades cada vez maiores – já em 2050 a ONU prevê que toda a população mundial esteja vivendo nas cidades – nos proporciona montes de confortos, mas exige uma exploração muito grande de recursos naturais para a produção dos bens de que passamos a necessitar para além de mamutes para comer, como, por exemplo, tênis de marca, óculos de sol, bonés, celulares, computadores (como este em que escrevo este artigo) e muitas coisas mais. A vida aglomerada em cidades potencializa muito alguns outros fenômenos exclusivamente humanos: as discriminações, a injustiça, a violência e a pobreza. Escrevi num artigo que a única coisa que une pobres e ricos é o desrespeito ao meio ambiente: uns por egoísmo, outros por necessidade. O rico não economiza água porque pode pagar. O pobre invade áreas de proteção ambiental porque não tem outro lugar para morar. E por aí vai.

Mas todo mundo diz que a salvação é a Educação Ambiental. Venho trabalhando programas educacionais há mais de duas décadas e só vejo os problemas ambientais se intensificarem. Mudamos nosso modo de viver a partir da segunda guerra mundial, sobretudo nos últimos 50 anos, e nos tornamos uma aguerrida sociedade de consumo. A guinada que nos tornou “consumidores” distancia-nos da natureza, pois impõe necessidades novas que não estarão, jamais, compatibilizadas com os “tempos” da produção e degradação natural das coisas. Eu não gostaria de parecer pessimista, do tipo: “não tem jeito, o mundo vai acabar”. Não vai, não. Só vai ficar cada vez pior.

Vivemos, mundialmente, um momento de crise de identidade enquanto sociedade. Tanto as ideologias políticas, quanto os preceitos morais de convivência social estão em crise. Espaço aberto para fundamentalismos e radicalismos. Em contraposição, nunca existiram tantas normas, regras e leis para orientar as condutas quanto nos dias atuais. Quanto mais leis necessita uma sociedade, menos ela está preparada para a convivência pacífica entre os cidadãos. Menos ela está, realmente, educada. Quanto mais individualistas, consumistas e alienadas estiverem as pessoas, menos poderemos vislumbrar uma real preocupação com o meio ambiente, porque respeitar o meio ambiente impõe desprendimento. Impõe revisão de valores. Qual educação ambiental poderia eu propor aos caçadores de Pokémon. Hein?!

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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