Sexta, Abril 28, 2017
redacao@fatopaulista.com.br / fatopaulista@hotmail.com Telefone: (11) 2849-1454 ::: Ano IX - Edição n º 249
Segunda, 11 Julho 2016 15:09

Cultura X Natureza

Escrito por 
Avalie este item
(0 votos)

A domesticação de animais foi um dos componentes fundamentais no processo de evolução da espécie humana. Isso é inegável. Ao confinar animais, domesticá-los e torná-los instrumento de trabalho – como o gado – e também alimento, no caso, além do gado, dos animais de menor porte, o ser humano pôde iniciar uma organização social mais sofisticada, perdendo menos tempo em caçadas perigosas e correndo menos risco de fome. Pôde ainda melhorar sobremaneira sua evolução intelectual, graças às proteínas consumidas e fixar-se à terra, inventando a agricultura e, a partir dela, outras coisas extraordinárias, como a cerveja, por exemplo! Mas isso, todo mundo sabe. Sabemos também que uma de nossas características, ou a mais típica, sempre foi tentar controlar, ou domesticar a natureza. Esse esforço permitiu o desenvolvimento das culturas humanas. Em todas as partes do planeta, lá estamos nós, seres humanos, convivendo e nos utilizando dos animais: animais para abate, animais para trabalho, animais de estimação e... animais para admiração!

Assim, desde o Egito antigo já se registra o confinamento de animais selvagens. Luiz Antonio da Silva Pires, zootecnista da UNESP, em seu artigo História dos Zoológicos, (www.coletiva.org), diz que já em 1.500 a.C., um faraó enviou expedições à África para capturar animais selvagens (sempre a África sendo assaltada). Mas um rei da Áustria dos idos de 1.752 é que parece ter inventado o zoológico mais ou menos como conhecemos hoje. E foi a partir da metade do século XIX que começaram a surgir zôos em todas as cidades mais importantes do mundo. Com razão, o especialista ressalta a parte positiva dessas instituições hoje em dia: a preservação de espécies em extinção. Mas, motivada por eventos recentes – o assassinato de uma onça no Brasil e de um gorila nos EUA, além do acidente com uma criança que teve o braço amputado por um felino e outra que foi carregada por um jacaré no parque da Disney, em Orlando, nos EUA, precisamos levantar certos questionamentos sobre esse nosso instinto primitivo de achar que podemos dominar a natureza e coloca-la em jaulas para poder sentir o frisson de estar bem pertinho dela. Mas sem incômodos. De tênis, com um pacote de pipoca na mão.

O primeiro ponto que questiono no correto artigo do professor Luiz Antonio é: será que para assegurar a permanência de certas espécies que estão em extinção precisamos de zôos? Bem, que tal se trabalhássemos para que os seres humanos parassem de eliminar tudo o que existe em seu caminho na gana de se manter dominantes no mundo? Mas isso é assunto para outro artigo.

O que coloco em pauta não é a parte da necessária pesquisa científica das instituições, mas a forma como se estabelece o confinamento e a exposição dos animais nos zôos urbanos que, penso eu, modestamente, como antropóloga que sou e não como bióloga, é uma coisa anacrônica. Eu conheci a onça Juma em Manaus. Parada, triste, com uma coleira de couro no pescoço, numa jaula completamente fechada, com janela de vidro, inóspita, escura. Prisão total! Ofereceram-me também no hotel em Manaus um passeio no qual, em plena luz do dia, poderíamos ver onças e outros animais selvagens, além de, ao entardecer, testemunhar o guia se debatendo com jacarés. Neguei-me, tamanho o ridículo. Se me dão garantia de ver, cara a cara, uma onça em plena a luz do dia, ela estará empalhada ou drogada. E o jacaré, amordaçado!!

A cultura ocidental sempre se desenvolveu em oposição à natureza e não em relação com a natureza. O verbo domesticar é bastante claro: “amansar, desbravar, docilizar, domar, dominar”!

As mortes do gorila e da onça de zoológico são emblemáticas, mas estes animais, em seus habitats, estão sendo eliminados todos os dias (vejam, por exemplo, o lindo filme A Montanha dos Gorilas). E com eles está sendo eliminada parte de áreas de floresta e mananciais que são fundamentais para que os “desbravadores” e “dominadores” que são os seres humanos permaneçam vivos sobre a face da terra. Temos, creio eu, que lutar pela manutenção e ampliação de reservas naturais e áreas de pesquisa para recuperação de espécies e não por zôos urbanos, que são uma coisa horrível, como foi, nos períodos coloniais, a exposição de seres humanos – indígenas, aborígenes, africanos – “amansados, docilizados, domados e dominados” nas cortes europeias, como troféus de uma pretensa superioridade branca. O ser humano não é superior a nada na natureza. Está aí o Aedes Aegypti, um mosquitinho, para comprovar isso!

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

Ler 659 vezes
Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.