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Terça, 22 Março 2016 13:31

Informação e Ilusão

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O mundo está estranho. Parece que temos nos tornado cada vez menos afeitos a verdades. Acho que aprendemos isso com os políticos. Porque todos eles, em todas as partes do mundo, mentem. E o fazem porque as pessoas preferem ouvir aquilo que querem ouvir e não aquilo que é preciso ser dito. Fica, assim, mais fácil organizar em explicações simplistas as relações de nossa sociedade globalizada e altamente complexa.

            Nesta sociedade, hoje tão midiatizada, todo mundo acha que tem acesso pleno a informação, pois sabemos o que acontece, em tempo real, tanto no nosso quintal, quanto no quintal dos outros. As notícias chegam de forma inacreditavelmente veloz. E todo mundo já vai dando palpite e opinião, o que é ótimo, porque assim, todos podemos nos expressar sobre tudo e, ai que bom, somos uma sociedade muito sabida e muito livre para opinar. Que bom mesmo, né? Que bom se fosse verdade!

Pois quanto mais informações nos chegam, parece que menos compreendemos o que está acontecendo. E, cada vez menos, recebemos informações sobre o que é preciso saber. Uma informação se sobrepõe rápida e seletivamente a outras e uma notícia nova passa por cima de outras e vamos nos esquecendo do problema gravíssimo de ontem, porque hoje um novo problema gravíssimo foi divulgado, sem contar que, no meio da divulgação e das notícias sobre os problemas gravíssimos do nosso quintal e do quintal dos outros, nas mídias sociais, ficamos entretidos um tempo gigantesco recebendo e repassando frases do dia, lindas orações, imagens da pratos de comida, receitas milagrosas para emagrecer, engordar, transar... É uma coisa incrível.

Junte-se a isso tudo um fato de grande importância: as mídias sociais permitem, como jamais, a manipulação dos fatos, a criação e difusão fulminante de fatos nem sempre verídicos, a exposição de pessoas, desafetos ou afetos – como muitos pais fazem com seus próprios filhos em situações vexatórias, por exemplo, ou como pessoas comuns pensam parecer verdadeiros pop stars “postando” selfies na piscina do condomínio.

Estamos passando por um momento de grande turbulência no Brasil, envolvendo figuras de relevância política do País. Governo e oposição tremem e, temos todos que ter serenidade para respeitar as instituições democráticas e fazer valer a lei, sobre quem quer se seja! Enquanto isso, fora daqui, um tsunami humanitário se perpetra em razão da guerra da Síria e a grande África continua sendo esquartejada e seus filhos sendo dizimados aos milhões pela guerra e pela fome em vários países, especialmente no Sudão do Sul e nenhum sinal de que haverá uma urgente solução para isso se apresenta. Tudo fica esfumaçado e se perde em nuvens de notícias banais que ganham relevância oportunista. Mas acreditamos que, estando conectados nas redes sociais e na TV, estamos informados e que, portanto, sabemos de tudo o que acontece e que, assim, nossas opiniões estão sempre bem fundamentadas. Não sabemos de tudo, não. Mas isso não é o pior. O pior, como já disse aqui, é que não compreendemos bem o sentido, a razão das coisas que os meios de comunicação e as redes sociais nos deixam saber. Os meios de comunicação nos enganam e, nós nos enganamos uns aos outros nas redes sociais.

Mas os leitores devem estar se perguntando: “porque será que uma especialista em meio ambiente está escrevendo essas coisas?” É porque as cortinas de fumaça que tentam nublar a corrupção no sistema político no Brasil fazendo tudo parecer um banal “Fla x Flu” entre partidos é a mesma que embaça a reação a posturas xenófobas contra os refugiados sírios na Europa e é, também, a mesma que encobre o racismo que causa um genocídio africano injustificável em pleno século XXI. Falo de tudo isso, porque essas cortinas de fumaça são também as responsáveis pelo cinismo mentiroso que envolve as discussões sobre as questões ambientais que já estão a causar enormes danos em todo o Planta, atingindo a todos.

Na verdade, ninguém é realmente cidadão num mundo como o nosso. Todos somos objetos manipuláveis. Mas, como achamos que estamos bem informados, flanamos complacentemente na cortina de fumaça que nos encobre a visão clara, e seguimos tomando posição e sendo contra a posição dos outros, sem pensar que estamos todos num mesmo barco, que já está, irremediavelmente, naufragando. E o naufrágio a que me refiro não é um hipotético futuro “fim do mundo” não, meus caros. Refiro-me ao mundo naufragado na corrupção, na violência, na injustiça e na desigualdade, no qual já vivemos nos dias de hoje!  

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

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